Por Ana Paula Barcellos
Eu tenho medo que falte água nesse verão. Não é medo de seca prolongada, de reservatórios vazios ou de crise hídrica anunciada na TV. É um medo mais prosaico, mais doméstico: o medo de que uma chuva qualquer, daquelas mais fortes que todo verão traz, derrube um poste, quebre um cabo, apague a luz e, com ela, pare as bombas da Sanepar. Aí a torneira seca, o chuveiro morre, a descarga vira luxo e a gente fica ali, olhando para o céu nublado, rezando.
Antes, uma chuva forte era sinônimo de alívio: lavava a rua, refrescava o ar, enchia os rios. Hoje, no Paraná, qualquer pancada um pouco mais animada pode significar blecaute na Copel e, logo em seguida, falta d’água em dezenas de cidades.
O que antigamente era evento excepcional virou rotina: vendaval, poste caído, energia cortada, bombas paradas, reservatórios esvaziando. E a gente aprende a conviver com isso como quem convive com uma dor crônica — reclama, mas já sabe que vai doer de novo.

E o mais absurdo é que esses serviços essenciais, água e luz, foram entregues ao mercado como se fossem mercadorias comuns. A Copel já virou corporação privada, com ações na bolsa e lucros para acionistas. A Sanepar segue o mesmo caminho. A lógica é simples: o privado é mais eficiente, investe mais, cobra melhor.
Mas, na primeira rajada de vento acima de 100 km/h, na primeira árvore que cai na fiação, quem aparece correndo para religar postes, alugar geradores, enviar caminhões-pipa? O poder público. Governador mobilizando equipes, Defesa Civil em alerta, prefeituras implorando soluções. O Estado, que supostamente se livrou do problema, volta pela porta dos fundos para apagar o incêndio.
Porque água e energia não são como celular ou carro: quando faltam, a vida para. Não dá para trocar de fornecedor no meio da enchente. Não dá para esperar o mercado se autorregular enquanto a geladeira descongela, a comida estraga e falta o banho pra sair trabalhar.
Falta de água, medo normal
Serviços essenciais precisam de planejamento de longo prazo, de estratégias eficazes contra desastres climáticos que só aumentam, de investimento que não vise só o dividendo do trimestre. Privatizar isso é apostar que o lucro vai sempre alinhar com o bem comum — e a realidade tem mostrado o contrário: qualquer chuva vira potencial crise, e o contribuinte paga a conta duas vezes: na tarifa e na intervenção emergencial.
Eu tenho medo que falte água. E eu moro no centro da cidade! No último episódio de torneiras secas em Londrina, o Centro não estava na lista de bairros afetados pela interrupção do abastecimento, mas faltou água aqui também.
O pessoal aqui do prédio não acreditou quando a água acabou no meio do banho: “Deve ser problema na bomba!” Era no abastecimento mesmo.
O conselho, assim que normalizou? “Consumam com moderação, a coisa tá problemática”.
Eu tenho medo que falte água. Mas tenho mais medo ainda de que a gente se acostume com isso. De que o medo vire normalidade, e a normalidade vire justificativa para entregar o que é de todos nas mãos de poucos. Porque, no fim, quando o céu desaba, não é o mercado que vem socorrer. É o Estado — aquele que a gente finge que pode lavar as mãos.
Foto: divulgação Sanepar
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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