Por Ana Paula Barcellos
Eu estava ali, no balcão da padaria, com o café esfriando na xícara e a cabeça matutando. Primeira crônica do ano, pedi ideias pro pessoal do balcão: “Tem que falar do ranking da transparência, essa vergonha”, ou “sobre o fiasco do Natal, foi fiasco, né?”. Só consegui pensar na roda-gigante do Calçadão que girava quase vazia, rangendo, parecia que o tempo parava lá em cima, tão devagar. É, o Natal chegou, passou e deixou um gosto de promessa não cumprida.
Estava eu pensando isso tudo quando apareceu o seu Tarcisio. Nunca tinha visto ele ali tão cedo. Entrou falando alto, como quem já vem com discurso pronto. “Se você escreve crônica, a primeira coisa que você vai escrever no ano não pode ser triste, pesada. Tem que ser uma coisa que passe esperança. Começar o ano já com coisa ruim fica muito pesado!”
Ele pediu um pingado, sentou do meu lado e continuou: “Veja bem, eu também acho que tá ruim, não tá bom não. Eu nem no homem votei, e tá muito ruim mesmo. Mas não custa a gente desejar que tudo dê certo, até porque vai saber, pode ter uma reviravolta boa, quem sabe? Vamos pensar positivo.”
Eu olhei pra ele, 70 e poucos anos de rugas que sabem das coisas, e senti uma pontada de inveja. Aos 42 eu nem sei se consigo mais acreditar assim, em mudança como se fosse mágica. Não acredito que dá pra plantar tomate e ver nascer abóbora. E a gente já levou tanta rasteira que o otimismo vira quase uma ingenuidade. Quase. Porque tem dias que a gente quer acreditar mesmo assim. Quer, nem que seja por teimosia.
Seu Tarcisio terminou o café, deu um tapinha no meu ombro e saiu cantarolando. Ficou no ar aquele pedido dele, simples e bonito: começar o ano com esperança. Não com ilusão, mas com desejo. Como quem planta semente mesmo sabendo que o tempo pode não ajudar.

Crônica/prece
Então resolvi ouvir o velhinho. Essa primeira crônica não vai ser denúncia, nem desabafo. Vai ser prece. Uma prece laica, sem santo, sem igreja, mas cheia de vontade.
Que 2026 seja menos fiasco que o Natal que passou. Que seja transparente, que seja inclusivo, que seja bom de verdade para o povo. Que esse ano não falte água, não falte luz, que a chuva venha sempre tranquila. E que a gente consiga, pelo menos por alguns dias, olhar um pro outro e desejar mesmo que dê certo.
Quem sabe?
Como disse seu Tarcisio: vai saber, não custa acreditar.
Que venha a esperança, nem que seja aos poucos.
Foto principal: IA/Freepik
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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