Por Ana Paula Barcellos
Nossa, como assim liberar porte de armas para mulheres? Sim, é isso, vamos falar sem rodeios, dezembro chegou, trouxe desespero e ainda levou embora o resto de paciência que sobrava aqui. Porque o Brasil é a terra dos absurdos, onde a gente acorda todo dia com notícia de mais uma mulher que morreu ou foi arrastada e perdeu as pernas porque disse não para um homem que acha que o corpo dela é território conquistado. E aí, no meio dessa carnificina, vem o poder público com um PLzinho meia-boca, que diz rindo “olha, mulher, se vira com uma arminha de choque de até 10 joules, porque o Estado aqui vai fazer mais nada não”.
Em Londrina, a Câmara Municipal aprovou em primeira discussão o PL 18/2025, que libera mulheres maiores de 18 anos a comprar e portar esses aparelhinhos de choque neuromuscular pra “legítima defesa”. Aprovado por unanimidade, com prazo de sete dias pra emendas. Parabéns, vereadores? Não, isso é confissão de incompetência e falta de vontade política. É o Estado admitindo: “A gente não consegue proteger vocês de verdade, nem quer muito pra falar com sinceridade, então vão lá e se virem sozinhas”.
A responsabilidade sobre as costas das mulheres, mais uma vez!
Aprovar algo assim é fazer de conta que tomou alguma providência e jogar nas costas das mulheres a responsabilidade pela própria sobrevivência. É se declarar incapaz, incompentente e, principalmente, não desejante de barrar a onda de feminicídios que engole o país, o estado e logo a cidade. No Paraná, 142 feminicídios foram consumados só em 2024, e no Brasil? São milhares de mulheres mortas por ano, com uma média de quatro mulheres mortas por dia. A violência dos homens contra as mulheres escala de forma avassaladora! E o que o Estado faz? Libera spray de pimenta e choquinho, como se isso fosse deter um agressor obstinado e determinado a matar. Até parece que é fácil imobilizar um homem enfurecido com uma piscadela elétrica – ele ri e continua o estrago, até se anima pra fazer pior na próxima. Porque aqui é assim, a mulher é agredida, espancada, desvivida e o cara sai livre já na audiência de custódia pra fazer novas vítimas.
Se vão empurrar pra nós a tarefa de nos proteger dos homens – porque é isso, né? A violência vem deles, em 99% dos casos- tira eles da equação e de quem a gente precisa se defender mesmo? –, então liberem logo o porte de arma de fogo e branca pra todas as mulheres. Criem o Bolsa Tiro pras minas: curso grátis, munição subsidiada, coldre fashion pra combinar com o vestido. Que tal assim? Transformem a bandoleira em acessório obrigatório para mulheres, tipo bolsa transversal, a gente já aproveita e arruma uma peixeira afiada.
Porque o risco que a mulher corre não é de sofrer arranhão: é de morte matada, de facada nas costas, de tiro no peito porque ousa existir e dizer “não”. Sejam decentes, sejam honestos: ou protejam de verdade, com leis que funcionem, delegacias especializadas 24/7 bem estruturadas e punições que doam, ou deem as ferramentas certas pra gente ter uma chance real nessa luta. Porque o Governo está empurrando a gente para uma guerra civil “de gênero”. É isso que o Governo está fazendo.

Já imaginaram a principal meta de ano novo de uma mulher ser “fazer aula de tiro”? Me informaram que tem 3 boas opções de clube de tiro na região, inclusive. O feminicida que matou as servidoras do CEFET era CAC e cometeu o crime usando suas duas armas registradas. Já imaginaram aprender com eles e deixar de ser o alvo, senhoras?
Bora, Londrina: podemos passar de choquinho pra calibre .38, num piscar de olhos, é só querer.
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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