Sogra, piadinhas e a disputa no relacionamento

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Por Telma Elorza

“Tenho 20 anos e estou com um rapaz de 22 quase um ano, mas só ‘oficializamos’ o namoro há dois meses. O problema é que, quando ele me apresentou para a família, percebi que minha sogra não gostou de mim, por alguns comentários desagradáveis que ela fez sobre minha aparência logo no primeiro dia, disfarçados de ‘brincadeira’. Isso me magoou e me deixou com o pé atrás com ela porque não esperava ataques. Ele, filho único, sempre me falou muito bem da mãe, de como ela é incrível e amorosa, que eles são muito ligados e que se entendem perfeitamente. Porém, todas as vezes que vou lá, na casa dele, me sinto desconfortável com a situação. Ele não percebe nada e até ri das ‘brincadeiras’ que a mãe faz e ainda comenta comigo, depois, como ela é engraçada. Sério, estou preocupada. Há alguma maneira de conquistar a sogra e fazer ela ver que sou legal para o filho dela?

Querida leitora, que situação, heim? Mas uma coisa me chamou a atenção no seu texto:  você não me disse qual foi a sua reação nas vezes que se sentiu agredida. Por quê? Imagino que deva ter sorrido sem graça e ficado quieta, né? A reação que 99% das mulheres teriam em situações semelhantes, para não “desagradar” a sogra logo nos primeiros encontros. O 1% restante teria devolvido o desconforto.

Bom, para começar, comentários sobre a aparência de alguém, no primeiro encontro pessoal, disfarçado de “brincadeira”, não é humor, é teste de território. A famosa alfinetada que vem embrulhada num papel de presente bonito, para disfarçar. Se você reage, você sai como culpada por não ter senso de humor. Se fica quieta, dá permissão para continuar infernizando sua vida.

Conveniente para uma mulher que dá todos os indícios que não a quer na vida do filho, né?

Porém, o que me chamou mais atenção nessa história, não é sua sogra. É o seu namorado.

Porque uma coisa é a mãe dele fazer comentários desagradáveis. Outra, completamente diferente, é o filho rir junto e depois elogiar o quanto ela é engraçada. Isso levanta uma RED FLAG enorme, porque, pra mim, ele é um “filhinho da mamãe”, aquele homem adulto que continua emocionalmente dependente da aprovação da mãe para absolutamente tudo.

Pensa comigo. Quando alguém normal presencia uma pessoa querida sendo alvo de comentários que a deixam desconfortável, costuma perceber. Pergunta se está tudo bem, muda de assunto ou defende, colocando limites. Mas seu namorado, ao contrário, parece aplaudir o seu desconforto. Só eu acho que isso não é legal, nem amoroso? Pensa bem sobre isso.

Tá, vamos ser justas. Talvez ele realmente não perceba que isso a deixa mal. Mas esse “não perceber” também diz muita coisa, para um bom entendedor.

Filho único, muito ligado à mãe, tudo isso me leva a pensar que ele não aprendeu a diferenciar amor de dependência emocional. Existe uma grande diferença entre respeitar a mãe e permitir que ela dite o clima do relacionamento. E, sinceramente, me parece que essa sogra já decidiu previamente que nenhuma mulher será boa o bastante para o “menininho” dela.

Sua sogra não está contra você. Está contra todas as mulheres do mundo

O caso é que a sogra não é contra você, mas provavelmente contra qualquer uma que possa “roubar” o filhinho. Poderia ser uma médica super conceituada, uma bilionária, modelo internacional, astronauta, voluntária em abrigos de idosos ou fazer o melhor pudim de leite do planeta. A sogra provavelmente encontraria um defeito em você ou qualquer outra. O cabelo, a roupa, o jeito de falar, de andar, a risada, seu signo, o perfume, a unha do dedinho do pé direito, qualquer coisa seria motivo para críticas de “brincadeirinha”.  

Quando uma sogra enxerga qualquer namorada como concorrente afetiva, ninguém ganha essa disputa. Nem ela própria.

Você tem certeza de que quer mesmo conquistar essa mulher, com o “filhinho de ouro” passando pano para ela? Acho que isso não deveria ser sua prioridade. Seu foco deveria ser observar seu namorado.

Como ele reage quando a mãe a agride “brincando”? Ele conseguiria discordar da mãe ou aceita tudo porque ela é “incrível”?

Provavelmente ele nunca vai confrontar a mãe, mesmo quando ela está obviamente errada. Ele vai esperar – e apoiar – ela dar palpites em todos os aspectos do relacionamento. E que, se for para frente (ai), ainda vai escolher a decoração da casa, dar pitaco na educação dos filhos, decidir onde passar o Natal e Ano Novo, se o casal pode ou não comprar uma casa, um carro, enfim. E sempre criticando você.  Você sempre será insuficiente.

Spoiler: isso costuma resultar em um casamento de merda.

Então, a minha sugestão é dê um basta. Já. Agora. Você tem apenas 20 anos, está no início de um namoro. É essa fase que usamos para conhecer a pessoa que está do nosso lado, para ver se ela é compatível para uma relação duradoura. E é nessa fase que os sinais aparecem. Não os ignore.

Não vale a pena entrar na pena entrar na guerra com a sogra por um homem que não está realmente do seu lado, pronto para defendê-la de qualquer ataque, venha de onde vier. Não vai dar para você competir com ela, muito menos conquistá-la.

“Ah, mas eu gosto dele”. Tudo bem, faça uma tentativa de conversar com ele. Peça para sair do papel de filho para assumir o papel de seu parceiro. Seja clara que não quer separá-lo da mãe, mas que não gosta das “brincadeirinhas”, que se sente criticada e magoada com as observações da sogra e que isso está desgastando você. Lembre-o que uma relação saudável acontece entre duas pessoas adultas. Não entre um casal e a sogra.

Essa conversa pode ser decisiva. Porque, se ele entender tudo sem partir imediatamente para a defesa da mãe, pode ser que tenha futuro. Se não….

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora é uma adolescente que quer ter uma vida normal, mas os pais querem protegê-la dentro de casa
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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