Quero largar tudo e viajar pelo mundo

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Por Telma Elorza

“Tenho 30 anos, solteira, sem filhos. Trabalho desde os 12 anos e, nos últimos 10, estou num emprego maravilhoso que só tem um problema: consome muito do meu tempo. Há três anos, não consigo tirar férias. Nesse meio tempo, conquistei algumas coisas importantes para a maioria das pessoas, como casa própria (financiada) e um carro bom. De uns tempos para cá, ando sonhando em largar tudo, vender o que tenho e virar mochileira, me arriscar numa viagem sem destino pelo mundo. Acho que a vida está passando e eu só estou trabalhando. Minha família é contra meus planos, meus pais dizem que não posso perder essa estabilidade que conquistei com muito trabalho duro por causa de um sonho que poderia realizar mais tarde, na vida. Mas estou tão angustiada que não quero esperar. Você, como uma pessoa de fora e lúcida, pode me dar uma luz? O que faço? Viajo ou me acomodo?”

Amiga, vou começar com uma verdade que a maioria das pessoas não fala: esse papo de “ou tudo ou nada” é uma armadilha. Ou você larga tudo vira uma mochileira sem destino ou aceita continuar trabalhando sem descanso para esperar a aposentadoria? Calma! A vida real é bem mais interessante, e inteligente, do que esse dilema.

Primeira coisa: seu incômodo é legítimo. Trabalhar desde os 12 anos e engatar 10 anos num emprego do qual não consegue tirar férias não é ser uma “funcionária dedicada”. É ser uma funcionária explorada. Você está perigosamente perto de um burnout. Esse desejo de largar tudo, vender seus bens e sumir não nasceu do nada. Ele é um sintoma que você está exausta, sobrecarregada e prejudicando sua saúde mental. Você não pode ignorar isso.

A vontade de largar tudo não é necessariamente a vontade de mudar de vida. Pode ser simplesmente vontade de respirar, ter tempo para você. Não precisa correr para vender a casa e o carro amanhã. Isso pode ser um impulso provocado pelo stress, querendo se desfazer dos símbolos do que a prende e ser completamente livre.

Você está num ponto da vida em que construiu uma base sólida para seu futuro. Na sua idade, hoje em dia, isso é raro. Jogar tudo para o alto sem estratégia pode custar caro e fazer você se arrepender lá na frente. Não porque viajar é errado. Pelo contrário, tem muita gente que prefere guardar experiências na memória que dinheiro no banco e eu acho ótimo. Da vida nada se leva além daquilo que a gente já viveu. O que eu não concordo e o que pode fazer você se arrepender é o impulso de largar tudo já, nesse momento. Decisões impulsivas cobram juros emocionais altos.

Antes de largar tudo, que tal planejar?

O que você precisa entender, nesse momento, o que é que realmente quer. Viajar ou ter mais liberdade? Trabalhar menos? Faça essas perguntas para si mesma. Porque, dependendo da resposta, a solução pode não ser largar tudo e sumir. Mas, talvez, mudar a forma que você vive hoje. No fim das contas, a pergunta não é “viajo ou me acomodo”? A pergunta certa é “como eu construo uma vida da qual não precise escapar”?

Por isso, que tal um meio termo por enquanto? Planejar? Fazer um plano que respeite tanto seu sonho quanto o esforço que você teve para construir uma estabilidade?

Entenda uma coisa importante: férias não são luxo, são necessidade básica. Você já passou três anos sem descansar corpo e mente. Então, antes de largar tudo e sair vendendo sua casa e seu carro, que tal experimentar algo revolucionário como parar por um tempo? Tire férias de verdade, desligue, viaje. Pode ser até um mini mochilão, por que não? Ou até uma viagem mais simples, mas que a tire do automático. Você pode descobrir que o mundo não precisa ser abandonado para ser vivido. E detalhe: a empresa, por lei, não pode negar suas férias. Mesmo que as outras tenham sido pagas. Ela está errada e sabe disso. Já converse com o RH, negocie umas férias estendidas, uma licença não renumerada e até, quem sabe, um ano sabático. Vá se programando.

Mas e se as férias não forem suficientes para você desistir do seu sonho? Ok, continue com ele. Porém, ele merece estrutura e planejamento. Viajar sem destino parece maravilhoso, mas também exige preparo. Dinheiro, reservas, noção mínima de rota, saúde mental para lidar com imprevistos e, principalmente, informações. Essas últimas são fundamentais por você ser mulher e viajar sozinha, correndo mais riscos do que teria se estivesse acompanhada. Alguns países e lugares são extremamente perigosos para mulheres sozinhas. Então, tudo isso é necessário antes de pôr o pé na estrada.

Por isso, comece a construir um plano de ação agora. Defina prazos. Vai viajar por quanto tempo? Seis meses? Um ano? Junte dinheiro específico para isso. Pesquise, se prepare, se organize. Faça um projeto bem alinhado para evitar surpresas desagradáveis em locais estranhos.

Tudo ok? Beleza.

Mas tem uma coisa que eu preciso dizer: cuidado com a romantização da fuga. Muita gente larga tudo achando que vai encontrar respostas mágicas pelo mundo e descobre que levou as próprias angústias consigo. A viagem pode ampliar quem você já é, mas não resolve automaticamente o que está mal resolvido.

E não fique brava com sua família por não concordar e tentar fazer você desistir de viajar. Eles falam do lugar de quem valoriza a segurança e, de certo modo, isso faz sentido. Só que eles não vivem sua rotina e não sentem o seu cansaço. Então, tente conversar de boas com seus pais.

No mais, se questione, se prepare e tome a sua decisão. No fim das contas, é você quem deve decidir.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora trabalha muito e está a 3 anos sem férias. Agora quer largar tudo e viajar pelo mundo sem destino. O que você faria?
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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