Por Telma Elorza
“Olá, acompanho sua coluna e gosto muito de todos os conselhos que você dá para as pessoas. E finalmente criei coragem de pedir um conselho para mim. Hoje tenho 32 anos e estou às vésperas de me casar. Quando eu tinha 17, meu pai morreu e minha mãe, sozinha, não conseguia sustentar eu e meus três irmãos menores. Para ajudá-la, eu comecei a trabalhar, mas não era suficiente. Eu decidi me prostituir e, com isso, consegui sustentar a casa, pagar cursos para meus irmãos e ainda fiz faculdade. Quando me formei, arrumei um bom emprego e larguei a prostituição. O problema é que nunca contei nada disso para meu noivo e isso está me pesando na consciência. Você acha que, mesmo correndo o risco de perdê-lo, eu devo contar? Não tenho vergonha – mas também não me orgulho – do que fiz para sobreviver e ajudar minha mãe e meus irmãos, que hoje estão formados e bem. Mas tenho medo de perdê-lo, porque o amo muito.”
Minha querida, primeiro de tudo, obrigada por ser minha leitora. Fico muito feliz que goste dos meus conselhos e acompanhe a coluna. E quero já dizer uma coisa que talvez você precise ouvir já: você é uma vencedora.
Seu pai morreu, sua mãe ficou sozinha com quatro filhos para criar. Você não disse, mas imagino que vocês não receberam apoio das famílias do pai e da mãe para nada. Era praticamente uma criança e, diante da situação caótica, encontrou uma maneira de colocar comida dentro de casa, ajudar seus irmãos e ainda estudar e construir uma vida diferente para você.
Você não está me contando que entrou na prostituição por diversão ou querendo uma vida de luxo “fácil” (como se prostituição fosse muito fácil. Só quem está nela sabe as dificuldades). Está me contando que tomou uma decisão difícil diante de uma situação que, infelizmente, foi colocada sobre seus ombros, os ombros de uma garota. E, por incrível que parece, a prostituição, no Brasil, é a tábua de salvação de muitas meninas em situações de vulnerabilidade. E ninguém pode condenar.
E veja aonde você chegou. Estudou, fez faculdade, construiu uma carreira e abandonou a prostituição quando pode. Seus irmãos se formaram, estão bem. Sua família venceu um enorme desafio e foi em frente. Tudo isso é motivo de orgulho pessoal.
Não há nada vergonhoso em ter sobrevivido e ido em frente, mesmo que graças à prostituição.
Mas eu sei como essa dúvida – de contar ou não ao seu noivo – deve estar angustiando-a. Sinceramente, eu acho que deve contar. E vou explicar o porquê.
Você não tem obrigação nenhuma de prestar contas sobre tudo o que fez antes de conhecê-lo. Ninguém tem. Você tinha uma vida antes dele e vice-versa. Mas existe uma diferença importante entre preservar sua intimidade e esconder deliberadamente uma parte importante da sua história por medo de que a pessoa que você ama não consiga aceita-la.
Esse segredo está corroendo-a por dentro agora, antes de casar. Imagina daqui 10, 20 anos. E se um dia ele descobrir por outra pessoa? Alguém que conheça sua história, um documento, algo que ficou registrado? Ou vocês encontrem um ex-cliente de quando era prostituta. Isso acontece muito nos filmes. Vai saber se na vida real não aconteceria?
O problema deixa de ser a prostituição e passa a ser o fato de ter escondido
O problema deixaria de ser o que aconteceu quando você tinha 17 anos e passaria a ser “por que você nunca me contou”? A ferida seria maior e mais profunda.
Porém, preste atenção numa coisa. Contar não significa se colocar diante dele como alguém que precisa pedir perdão. Você não tem do que se envergonhar. Fez o que tinha que ser feito no momento, atingiu seus objetivos e caiu fora da prostituição.
Você pode simplesmente contar como me contou aqui, talvez explicando melhor alguns detalhes (menos sobre os clientes ou qualquer tipo de coisa relacionada ao trabalho de prostituta, não caia nessa mesmo que ele insista) que deixou de fora do seu e-mail. Que seu pai morreu, que a família estava muito vulnerável e, mesmo com um trabalho (que acredito que pagava o mínimo), não supria as necessidades. E que a prostituição permitiu que a família inteira sobrevivesse. E enfatize que, assim que teve outra oportunidade profissional, deixou aquela vida para trás.
Conte e não fique se justificando. Espere que ele processe tudo, em silêncio. Talvez ele fique surpreso. Talvez precise de um tempo para analisar tudo. Talvez tenha dificuldade para entender e faça perguntas.
E, sim, existe uma grande possibilidade de ele não aceitar seu passado como prostituta. Vai doer sim, para um caralho.
No entanto, pense comigo. Você quer se casar com um homem que ama apenas a versão da história que ele conhece? Ou com um homem capaz de conhecer sua história toda e continuar escolhendo você?
Faça isso logo, antes do casamento. Não fique esperando uma oportunidade.
Porque casamento bom precisa de verdade de ambas as partes, mas também de respeito pela história do outro.
E uma última coisa e a mais importante. Se ele terminar o relacionamento por causa disso, não será porque você foi “errada” e precisaria se envengonhar. Será porque ele não merece uma mulher guerreira que não se deixou abater e lutou como pode. Lembre-se que hoje você não é mais aquela menina de 17 anos que precisou tomar aquela decisão. É uma mulher de 32 anos que aquela menina conseguiu construir.
Sinceramente, acho que essa mulher merece alguém à sua altura. Torço e rezo para que seu noivo seja esse homem.
Boa sorte. E se puder, venha me contar depois o resultado, ok?
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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