Por Telma Elorza
“Tenho 17 anos e sou homossexual. Minha família descobriu recentemente e está ficando louca e furiosa com isso. Querem me obrigar a ir a uma ‘cura gay’, com o pastor e um terapeuta (não sei se é psicólogo ou não). Estou resistindo, mas estou sofrendo muito com tanta gente falando na minha cabeça. Estou confuso e assustado. Passo a maior parte do tempo me escondendo, nem vou para casa, tenho dormido na casa de amigos. O que posso fazer para me deixarem em paz?”
Primeiro de tudo, sinto muito por você estar enfrentando essa situação, quando deveria ter acolhemineto e amor da própria família. E posso afirmar como certeza que quem está doente não é você. Quem precisa de ajuda – terapia, exorcismo ou choque elétrico – são eles. Achar que ser gay é uma doença não é apenas desinformação: é crueldade travestida de preocupação cristã, é preconceito disfarçado de amor. Querem lhe arrancar de si mesmo em nome de um manual moral que já deveria ter sido reciclado no século passado.
Vamos deixar uma coisa bem clara desde o início: não existe cura gay porque não existe doença gay. A homossexualidade não é um distúrbio, não é um trauma, não é uma fase. A única coisa doente nessa história é a tentativa de reprimir alguém por amar de um jeito que incomoda quem vive preso a caixinhas pequenas demais.
A tal “terapia de reversão sexual” — esse nome pomposo para tortura psicológica — foi proibida por órgãos sérios de saúde no mundo inteiro. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia já deu o recado desde 1999: qualquer profissional que tente “curar” alguém por ser gay está quebrando o código de ética da profissão e pode ser punido por isso. E não é só por ser antiético — é porque esses tratamentos causam depressão, culpa, automutilação, ideação suicida. Isso não é fé. Isso é violência.
Sua família talvez ache que está “salvando-o”. Mas o que eles estão fazendo é tentar apagar a sua essência pra caber num molde que eles acham mais aceitável. Só que você não é um erro de fábrica. Você é só alguém que quer ser aceito por inteiro, com direito a amar, sentir, viver — como qualquer pessoa.
Talvez lhe digam que isso é coisa do demônio. Que Deus criou homem e mulher. Que é só confusão da adolescência. Que vão ajudá-lo a “voltar ao normal”. Mas vamos combinar: que raio de normal é esse onde o amor precisa passar por exorcismo? Onde o filho é empurrado pro fundo do armário à força e com culpa?
Meu conselho? Procure aliados. Amigos, professores, coletivos LGBTQIA+, psicólogos de verdade (não esses charlatões com Bíblia debaixo do braço e traumas mal resolvidos). Pessoas que o vejam por quem você é, não por quem gostariam que você fosse. Se for possível, converse com sua família com calma. Mas se não for seguro, preserve-se. A sua integridade emocional e física vem primeiro. E não, não é egoísmo. É sobrevivência.
Denuncie a tentativa de forçar a “cura gay”
Por você ser menor de idade e estar sendo forçado a passar por isso, saiba: você tem direitos. E pode, sim, procurar ajuda legal. Saiba onde:
Procure o Conselho Tutelar: O Conselho Tutelar é o primeiro lugar pra onde você pode ir — eles existem justamente pra proteger crianças e adolescentes de abusos, inclusive os psicológicos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante que ninguém pode obrigar você a um tratamento que coloque sua saúde mental em risco.
Acione o Ministério Público ou a Defensoria Pública: esses órgãos podem oferecer apoio jurídico gratuito.
Registre denúncia no Disque 100 (Direitos Humanos): funciona de forma anônima e a denúncia pode gerar uma investigação.
Converse com um psicólogo da escola: profissionais da educação também são obrigados a comunicar casos de violação de direitos.
Não deixe passar em branco. Sua família está abusando psicologicamente de você e merece ser denunciada.
Você não está sozinho. E não tem nada de errado com você. Errado é quem tenta apagá-lo, suprimir uma parte importante de você, que é sua sexualidade.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.


Uma resposta
Isso mesmo! Afaste_se de gente tóxica e moralista!Use os órgãos competentes e saia dessa casa! Não deixem te adoecer! Vc é importante! Muito bem colocado Telminha!