Por Telma Elorza
“Estou num relacionamento sério há um ano e morro de ciúmes do meu companheiro. É muito ciúme, de armar barraco cada vez que eu vejo ele conversando com uma mulher. Só que, depois que eu dou o vexame, tenho medo dele terminar comigo, peço milhões de desculpas, prometo que vou mudar, mas isso vai até a próxima vez. Eu sei que isso está nos atrapalhando nossa relação, mas não consigo me controlar. Como faço para ser menos ciumenta?”
“Oh! Cuidado com o ciúme, meu senhor! Ele é um monstro de olhos verdes, que produz o alimento do qual se nutre!“
Frase do Otelo, de William Shakespeare
Nas linhas que a leitora NÃO escreveu, eu consigo enxergar várias coisas. Se dá barraco cada vez que vê o companheiro conversando com alguma mulher, ela também mexe no celular, vigia cada passo do companheiro, não deixa se relacionar com os amigos, tem ciúmes da família dele, espiona, cerceia a liberdade dele, enfim, faz da vida de ambos um inferno. E ele, mesmo que não seja lá essas coisas, ainda assim é um santo para aguentar tanta invasão e controle. .
Bom, vou falar algumas coisas que você já deve ter ouvido, mas que é importante repetir. E a primeira delas é: procure um psiquiatra URGENTE! Porque o ciúmes obsessivo não tem nada a ver com amor. E pode até ser um transtorno psiquiátrico. Ciúmes obsessivo é doença como o TOC, a ansiedade e a depressão. E, às vezes, aparece junto com essas outros transtornos.
Eu sempre falo que existem três níveis de ciúmes: o normal, o moderado e o gravíssimo. O normal é aquele ciuminho que bate uma vez ou outra, mas que ambos tiram de letra. Um ciuminho leve até ajuda nos relacionamentos.
O moderado é aquele que se torna rotineiro e está mais relacionado com a própria insegurança (e isso vale para homens e mulheres). O ciumento moderado não consegue confiar no amor da outra pessoa, porque não se acha merecedor de ter aquele homem ou mulher a seu lado. Não admite nem para si próprio, mas acredita que o(a) parceiro(a) é “muita areia para o caminhãozinho dele”.
Juntamente com os sentimentos de posse e controle, essa insegurança leva a crises de ciúmes moderados. A insegurança pode advir de uma baixa autoestima e complicada, às vezes, por experiências amorosas anteriores mal sucedidas, episódios de traição ou até sem outro motivo a não se o “não se gostar”. Nesses casos, já é recomendado terapia.
Já o gravíssimo é aquele que mata. O ciumento obsessivo tem fixação na pessoa e, agravado por outros problemas psiquiátricos, pode ser fatal, principalmente quando o ciumento obsessivo se torna consciente que vai “perder” a pessoa. Muitos dos casos de feminicídio têm motivo nessa obsessão, que poderia ser controlada com medicação.
Então, antes de mais nada, busque ajuda. Não estrague sua vida e a de seu companheiro por algo que pode ser medicado e tratado.
Até lá, pense nisso (você também deve ter ouvido isso de alguma amiga, portanto veja se acredita agora): se seu companheiro continua com você, mesmo sendo uma ciumenta obsessiva, ele deve amá-la. Por que ficaria ao lado de uma mulher que só faz inferno na vida? Então sossega a raba e vai se cuidar.
Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
Arte: Mirella Fontana
