Por Telma Elorza
“Aos 72 anos, minha mãe, professora aposentada, pediu o divórcio do meu pai, saiu de casa e disse que ia viver a vida. Estamos, eu e meus dois irmãos, confusos e revoltados com essa atitude. Meu pai tem 70 anos, e está perdido. Ele não sabe viver sozinho, nunca fez nada dentro de casa, só trabalhava e cuidava do sustento da família. O dinheiro da minha mãe sempre foi pra ela, fez um bom pé de meia e ele nada. Como podemos convencê-la a voltar?”
Amiga, deixa eu confessar uma coisa: quando li o seu desabafo, confesso que fiquei com vontade de responder de forma curta e grossa com uma única pergunta: por que exatamente sua mãe deveria voltar?
Porém, vamos conversar para que você entenda toda a situação.
Parece que o grande problema não é o divórcio em si. O problema é que, talvez pela primeira vez em décadas, alguém resolveu quebrar um arranjo que funcionava muito bem para todo mundo. Menos para sua mãe.
Sua mãe tem 72 anos, professora aposentada. Décadas trabalhando fora, formando alunos, lidando com salas cheias, horas fora da escola preparando aulas (e nem sempre renumerada), burocracia, provas, pais de alunos, stress e salários nem sempre compensadores, diante de tanta responsabilidade.
Ao mesmo tempo, ela administrou a casa, rotina, cuidou e educou os filhos – incluindo verificar se fizeram as tarefas, estudaram para as provas – , festas de família, consultas médicas, compras de supermercado…. Enfim, aquela lista infinita e invisível que sempre recai sobre a mulher/mãe/esposa.
E seu pai? Pelo que você mesmo descreve, trabalhava e “cuidava do sustento” da família. Ótimo, isso é importante, não quero diminuir ninguém. Mas repare na continuação da frase: “ele nunca fez nada dentro de casa”.
Nada.
Nem lavar uma louça, fazer um café? Nunca descobriu onde ficam as meias? Acredita que as roupas ficam limpas e passadas magicamente?
Aos 70 anos, o drama da família é: “ele não sabe viver sozinho.” Curioso, né?
Durante décadas, sua mãe aparentemente soube viver trabalhando, administrando a própria vida e ainda a da casa, dos filhos e do marido. E seu pai “planou” em ares calmos, chegando em casa depois do trabalho para descansar, provavelmente com o jantar pronto, jogou seu futebol com os amigos, fez seu churrasquinho aos domingos e chegou a velhice sem saber como nada funciona dentro de casa.
E o problema é ela?
Sua mãe está certíssima
Vou ser bem direta e até um pouco ácida: ela está certíssima. O que você, seus irmãos e seu pai precisam entender é que sua mãe não pediu demissão da família. Ela pediu demissão de um cargo vitalício de cuidadora universal.
Muitas mulheres da geração de sua mãe passaram a vida em um tipo de contrato não escrito: trabalhar fora, ajudar financeiramente (duvido que ela tenha guardado todo o salário para si, seja justa – e mesmo que tivesse, fez bem, porque enfrentava tripla jornada), cuidar da casa, criar os filhos e, no final da história, envelhecer silenciosamente ao lado de um marido que continuaria dependendo dela para tudo. Inclusive cuidando dele, se ficasse doente. Sua libertação só viria quando ficasse viúva.
Algumas mulheres aceitam isso até o fim, e isso é o mais comum. Outras, no entanto, percebem que já fizeram demais por todos e agora é hora de cuidar de si mesmas. Estas sabem que o tempo restante de vida pode ser curto e resolver fazer algo radical: viver enquanto ainda é tempo.
Sua mãe não foi iludida por um homem qualquer nem entrou para uma seita. Ela está consciente de tudo. Simplesmente resolveu viver. E, sinceramente, um pouco tarde até. E você vai culpá-la?
Agora vamos ao ponto que vai incomodar bastante: o dinheiro. Como você disse, ela guardou o dinheiro e deve ter feito um bom pé de meia. Professores não enriquecem por milagre, não com os salários que são pagos. Ela teve disciplina, se organizou, planejou. Isso não é egoísmo, se chama responsabilidade financeira. Talvez ela soubesse que um dia precisaria desse dinheiro para fazer as próprias escolhas.
Enquanto seu pai, que aparentemente administrou apenas a parte do sustento da casa, chegou aos 70 sem autonomia doméstica e sem planejamento. É triste? É. Mas não foi sua mãe quem criou essa dependência. Os homens são criados para serem cuidados por mulheres. E, durante décadas, ele participou (ou será que insistiu?) desse modelo.
Agora respondendo a sua pergunta: vocês não vão convencê-la a voltar. E, sendo bem objetiva, nem devem tentar. Porque o que vocês querem não é recuperar um casamento, é uma cuidadora para seu pai, para que as responsabilidades não recaiam sobre você e seus irmãos. Todos adultos, com família própria, imagino. Vocês querem de volta o sistema de conforto familiar, em que todos tem um papel pré-definido, inclusive o dela, de segurar tudo dentro de casa e ainda cuidar dos netos.
Seu pai pode aprender a viver sozinho. Milhões de homens aprendem a cozinhar, lavar roupa e cuidar da própria vida quando são obrigados. Não é uma incapacidade biológica, é apenas uma habilidade que nunca foi exigida.
E se vocês, filhos, gostam e respeitam sua mãe, o melhor que podem fazer é não pressioná-la a voltar a um lugar do qual ela obviamente quis sair.
O que podem fazer é serem adultos, é respeitar a decisão da sua mãe e ajudarem a seu pai aprender a viver sozinho.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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