O mistério de Cleópatra

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Por Chantal Manoncourt

Grega e egípcia, Cleópatra personifica a dualidade entre Oriente e Ocidente. Uma exposição em Paris tenta desvendar o mistério dessa rainha que se tornou um mito.

Quem foi Cleópatra?

Cleópatra nasceu em Alexandria, a prestigiosa capital dos Ptolemeus, em 69 a.C. A cidade havia sido fundada dois séculos e meio antes por Alexandre, o Grande, rei da Macedônia. Após a morte do conquistador, o poder passou para Ptolomeu, um de seus oficiais, que estabeleceu a dinastia ptolemaica egípcia. Sua dinastia reinou por três séculos, até Cleópatra, a sétima e última soberana dessa linhagem.

Cléopatra, a rainha do Egito, é tema da exposição que está no Institut du Monde Arabe, em Paris, até janeiro de 2026

Quando nasceu, seu pai, o fraco Ptolomeu XII, tinha pouco em comum com seus ilustres ancestrais, exceto sua riqueza: seu reino havia se tornado um protetorado romano. O desafio de Cleópatra seria manter a relativa autonomia do Egito. Um trono, joias, coroas e moedas com sua imagem atestavam seu poder. Ela seduziu Júlio César, que inclusive lhe deu um filho chamado Cesarião.

Amante e rainha

Mas Júlio César já tinha um filho adotivo, Otaviano, que desconfiava de Cleópatra. Ela, por sua vez, tentou apaziguar o poder romano para preservar seu reino, mas ao custo de Roma ceder metade do Mediterrâneo. A fúria de Otaviano diante dessa virtual rendição levaria à guerra após o assassinato de Júlio César.

Essa rainha pagou um preço alto por seus atos de resistência contra a invasão romana. Ela, que quase se tornou imperatriz do Império Romano ao lado de César, escolheu tirar a própria vida após a derrota na batalha naval de Ácio, em vez de se render a Otaviano, que se tornou o imperador Augusto. O suicídio de Cleópatra em 30 a.C., aos 39 anos, após ser picada por uma cobra venenosa, faz parte de sua lenda. Ela reinou por 22 anos, e sua morte pôs fim à dinastia ptolomaica.

Uma figura mítica

Não é extraordinário que a vida daquela que talvez seja a mulher mais famosa da Antiguidade permaneça tão pouco conhecida? Durante séculos, Cleópatra foi reconhecida por sua beleza fabulosa, uma arma fatal que supostamente lhe permitia seduzir os homens mais poderosos de sua época e torná-los seus aliados.

Reduzir a rainha à sua mera feminilidade e atribuir seu sucesso com homens poderosos unicamente à sua aparência física é negar aspectos muito mais importantes de seu caráter: Cleópatra era a soberana do reino mais rica do Mediterrâneo antigo, atuava como chefe de Estado e era uma mulher inteligente e culta. E o que dizer da observação de Blaise Pascal, o famoso escritor francês do século XVII, sobre o nariz de Cleópatra: “Se fosse mais curto, toda a face da Terra teria mudado”.

Em Roma, a estátua que Júlio César mandou erguer no Templo de Vênus testemunha a sua presença, elevada à categoria de deusa. Mas apenas um papiro permite-nos talvez reconhecer a sua assinatura, bem como moedas emitidas pela própria rainha, ostentando a sua efígie sozinha ou com o perfil de Cesarião, mas nenhum vestígio do seu palácio. Nem do seu túmulo, nem do de Alexandre.

Uma estrela internacional

No Ocidente, a partir do século XVI, Cleópatra experimentou um destino póstumo excepcional através da literatura e das artes. A representação fantasiosa de sua morte, constantemente adaptada e reapropriada, atravessou os séculos em uma longa cadeia de obras interligadas que ecoam e nascem umas das outras, produzindo continuamente novas “Cleópatra depois de Cleópatra”.

Atrizes carismáticas levaram a mania de Cleópatra aos palcos e telas em produções espetaculares, com seus figurinos suntuosos e maquiagem sofisticada: Claudette Colbert (1934), Vivien Leigh (1945), Sophia Loren (1953) e, especialmente, Liz Taylor (1963). Esse papel icônico estabeleceu os códigos de Cleópatra na moda, no design e na cultura pop. Cerca de 220 filmes (paródias, filmes para televisão e até filmes eróticos) produzidos entre 1963 e 2023 atestam seu legado cinematográfico duradouro. A lenda de Cleópatra continua a inspirar sonhos e fantasias e o mistério permanece.

Serviço: Le Mystère Cléopâtre: Institut du Monde Arabe, 1 rue des Fossés Saint-Bernard 75005 Paris, até 11 de Janeiro 2026

Fotos: © Galerie Michel Descours/Didier Michalet ; MBA Rennes, Dist-Grand Palais RMN/Patrick Merret ; Fondation Grandur pour l’Art ; Collection particulière; 20th Century Fox Film.

Chantal Manoncourt

Parisiense, arqueóloga e jornalista, apaixonada pelo Brasil, já escreveu vários livros sobre turismo brasileiro.

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