Diário de Quarentena: Acúmulo ou coleção?Parte II

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Não se admirem pela parte do “colecionador ou acumulador” ter a parte II! Ouvi de um reciclador uma história de vida que vale a pena contar na coluna de hoje e que veio à calhar com um projeto que tenho engavetado faz anos! Não vou dizer o nome do rapaz, mas ele é bem magro e trabalha na reciclagem de dia e de noite… Trabalha ainda como pintor e ajuda um senhor que tem sítio que carrega entulho.

Tive a oportunidade de conhece-lo quando vieram na minha casa pegar alguns moveis e papéis velhos que estava retirando do atelier! E o vi também carregando o caminhão de entulho do vizinho. Daí, como boa londrinense (que conversa com todo mundo), ouvi ele falando que estava com fome e que tinham que ir para o barracão da reciclagem porque ainda iriam para o centro recolher e que não podiam perder as marmitas dos restos de comida que o pessoal da churrascaria davam para eles às nove da noite! Detalhe: eram quase 6 horas da tarde e ele ia “almoçar” às nove da noite! Isso, depois de carregar reciclagem, descarregar no barracão, carregar um caminhão de entulho do vizinho e ainda voltar para carregar mais reciclado!

Perguntei aonde ele morava, ele super educado, me tratando de dona Angela, me falou que não tinha casa e que a melhor ajuda era dar o reciclado para eles e que, se precisar, ele faria qualquer tipo de trabalho, desde puxar entulho até pintar paredes. Eu vi esse rapaz e o colega trabalhando duro há várias semanas com o caminhão da reciclagem que passa aqui e o dia todo no novo vizinho que está reformando a casa.

Então vamos lá! Como escrevi na coluna anterior, colecionadores são importantíssimos! Eles preservam a história, as peças raras que nos ajudam a nos inspirar! Sejam roupas, brinquedos, bijoux, joias, tecidos, móveis, objetos! Acumuladores não! É um problema e um distúrbio seríssimo! Vejam como são as coisas.

Entramos também no assunto das pessoas que jogam seus lixos nas ruas, mares, rios por pura falta de consciência e empatia com os outros e com o planeta em que vivem! 

Entramos também na falta que faz uma usina de reciclagem completa nas cidades! Seria um lugar aonde os recicladores teriam carteira assinada e parte nos lucros da reciclagem.

Onde entra a arte nisso? Eu imagino que usinas de reciclagem poderiam ser mini cidades, com escolas para adultos e crianças, oficinas de todos os tipos, marcenaria, desenho, pintura, costura, padaria, com profissionais contratados de todas as profissões, desde pedreiros, pintores de parede, artistas, padeiros, costureiras, jardineiros….. Essa usina de reciclagem teria fundição, lugar para que o lixo orgânico virasse adubo, onde móveis seriam transformados, roupas aproveitadas, retalhos virariam patchwork e consequentemente cobertores, colchas, almofadas…Com profissionais de moda, alunos de todas as matérias, trabalhando com esses recicladores e servindo como estágios para eles.

Uma vez, cheguei a colocar essa ideia no papel e comecei a desenhar um mapa todas as ramificações de um projeto desses! Simplesmente seria possível envolver toda a sociedade  e esses trabalhadores teriam uma vida digna condizente com o esforço descomunal em que vivem! E que também poderia ter cursos profissionalizantes e os EJAS, para quem quisesse estudar e até ir para universidade.

Vocês já pensaram que uma usina poderia fazer todo adubo orgânico pra hortas e jardins caseiros, públicos e plantaçoes? Comprados mais baratos e uma parte iria para manter a usina e outra pra o pagamento de TODOS os envolvidos no projeto? E isso seria apenas um “braço”, por assim dizer, de uma usina COMPLETA de reciclagem!

Pensem! Que, funcionando sem a porcaria dos corruptos e administrado por pessoas corretas e honestas (eu posso sonhar, né, gente?), em poucos anos não teríamos nenhum lixo nas ruas da cidade! E isso geraria milhões em empregos, profissionais das mais diferentes áreas e, quem sabe, pessoas como esse rapaz que trabalha duro um dia e uma noite para apenas “sobreviver” e com dignidade (porque, devo frisar, não tive pena, não! Tive revolta por saber que quantos não trabalham duramente por comida, nesse pais cercado de gente que gasta nosso dinheiro suado com idiotices, enquanto brasileiros como esses rapazes estão ai! Lutando!)

E sim! Hoje gostaria apenas que pensassem sobre isso! Não sobre fazer “caridade”, mas sobre começarmos a lutar e ver o que realmente podemos fazer para melhorar a vida de todos nós! Não acumulem, façam a energia desses objetos fluírem, reciclem! E colecionadores: mantenham o que realmente é importante! Consertem, façam manutenção, façam, se possível, inventários com as peças, como ano e procedência… Tem muita gente especializada para ajudar!

Para quem quiser saber o telefone dos recicladores podem entrar em contato comigo aqui no jornal!

Boa semana! E lembrem: o que é lixo pra vocês, pode ser o sustento digno de outras pessoas!

Angela Diana

Foto: Ana Paula Barcellos

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Foto: Pixabay

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