Diário da Quarentena: Criar na Paz ou na Guerra

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Por Angela Diana

Quando estudamos o processo de criação, uma das primeiras coisas que aprendemos é que você precisa se sentir “incomodado” para poder criar. Alguma revolução interna, uma vontade louca de falar para o mundo o que se está pensando ou sentindo… Alguns artistas trabalham bem quando suas vidas vão mal, outros trabalham o tempo todo, criam em momentos de paz ou de guerra e, como já expliquei, a criação é um conjunto de estados: um impulso, uma ideia, insights, compulsão (quase isso!), às vezes uma benção e, por vezes, uma maldição…

Foto: Acervo pessoal

O caso é que este estado de sempre trabalhar pressionados pelas contas, pelos boletos, pelo prato de comida do dia a dia, não faz bem para ninguém! Que dirá para um artista. A criação exige tempo, esforço físico, esforço mental… E saúde! Quantas crises sérias de alergia já tive nesses trintas e poucos anos! Inclusive começo de envenenamento por causa de resinas. Tenho uma amiga que quase morreu por causa do pó de pedra sabão (o pó é finíssimo e sedoso, simplesmente “gruda” nos pulmões).

Como qualquer pessoa, ficar sob pressão o tempo todo acarreta danos… O que salva é que temos a nossa “válvula de escape”, que é o próprio trabalho. Mas, sério, pessoal! Ninguém deveria ter que passar por isso! E num país como o nosso que o básico é uma fortuna, que para viver com um pouquinho de dignidade, temos que trabalhar 6 meses no ano, para ver nosso dinheiro indo para o esgoto, para que ratos engravatados o devorem! Não! Peraí… ratos são bichos que tem uma função na natureza. Políticos corruptos não podem ser chamados de ratos… Isso é denegrir o bichinho!

Foto: Acervo pessoal

Assim como muita gente, eu me divirto comprando… mas meu céu particular são as lojas de tintas, materiais para artistas, depósitos de construção,  ferramentas elétricas… Uma vez, escolhi um alicate de cortar arame ao  invés de um biquíni, foi a primeira ferramenta que ganhei, e tenho ele comigo até hoje. Além da pressão das contas, ainda nós artistas mulheres temos que lidar com o preconceito e com crenças machistas, do tipo que “precisamos dar conta de tudo, casa, marido, contas, carreira, casa e cabelo sempre arrumados”…

Carga mental, carga extra quando se é mãe (lidar com mudanças hormonais, filhos para criar, alimentar , ensinar). Ufa! Mães artistas? Essas são as que ” têm” que dar conta dos filhos e ai delas se preferirem a carreira! Pensem comigo! Quantos artistas homens fizeram isso e a sociedade não acabou com a reputação deles? Mulheres inteligentes, livres, independentes, que quebraram regras e tabus eram e são ainda rotuladas de piranhas,  putas, mães horríveis e por aí vai… Ahhh! E aí, creio eu, vem o pior: Quantas mulheres foram retiradas da história, porque eram artistas? E porque eram mulheres… E aí! O que nos salva? A maravilhosa vocação de transformar lixo em pó de estrelas (não resisti gente! Um pouco de licença poética!).

Mas, hoje, fiquei imaginando, como seria se não tivéssemos tanta pressão apenas para sobreviver? Como seria a comida ser barata , a luz e a agua, internet “gratuita” (já que pagamos caro pelo satélite), ter as necessidades básicas asseguradas e poder ter paz pra investir tempo e dinheiro no trabalho, na obra… Para as artistas mulheres, serem respeitadas como se respeita os artistas homens! Eu sei… não é dessa vez e nem nessa encarnação…mas foi bom imaginar isso.

Foto: Acervo pessoal

Nós, seres humanos nos acostumamos com tudo, até com coisas ruins, por isso tanta gente não consegue ser feliz! Não consegue se amar, sair de situações abusivas, se libertar do negativo… A arte me ensinou que podemos sim… mudar! Para melhor… Mas sempre com sacrifícios…

E pessoal, falando nisso, colaborem com nosso jornal do coração, pelo catarse.me/olondrinense Vocês não imaginam o sacrifício que nossas amigas poderosas enfrentam para colocar esse jornal no ar!

Pax vobiscum! Carpe Diemmmm!

Foto: Ana Paula Barcellos

Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Foto: Acervo pessoal

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