Indígenas devem manter tradições ao mesmo tempo em que se adaptam à contemporaneidade

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Por Fábio Luporini

Pensar que os indígenas brasileiros estão fadados ao interior da floresta, ao arco e flecha e à pesca e caça, é o mesmo que ignorar a dinamicidade das transformações culturais e a dinâmica da própria sociedade brasileira. Por isso é que falas que remetem ao uso de roupas, de aparelhos celulares e de internet como algo extraordinário caem no preconceito e na ignorância da realidade. Não é porque os grupos, povos e comunidades indígenas ressignificam comportamentos e assimilam valores “ocidentais” que devem deixar de ser tratados a partir de aspectos específicos e caraterísticos.

A defesa da aculturação dos yanomamis pelo governador de Roraima, Antonio Denarium, não é apenas a reprodução de um argumento tolo e vazio advindo do senso-comum, mas, parece-me a ponta de um iceberg que desconsidera os direitos que esses povos têm de manter vivas suas tradições e, ao mesmo tempo, assimilar elementos modernos e contemporâneos. É um claro, embora obscuro, projeto de extinção dessa cultura de povos originários que ainda sobrevive no Brasil.

Recentemente, visitei uma aldeia pataxó em Paraty, litoral do Rio de Janeiro. Para ter acesso à praia do Iriri e à cachoeira de mesmo nome, foi preciso estacionar o carro num determinado ponto da reserva, cujo estacionamento custava R$ 20. Ali dentro, cada turista era obrigado a recolher seu próprio lixo. E uma pequena banquinha vendia alguns comes e bebes. Além disso, dentro da reserva era possível ver construções ora de alvenaria, ora de palha e madeira. Assim como carros modernos, incluindo caminhonetes.

Essa realidade é uma expressão do contexto em que vivem os indígenas brasileiros. Ao assimilar elementos de fora, mas, mantendo e ressignificando seus hábitos e costumes, o indígena reafirma sua identidade. E isso pode ajudar, inclusive, a incrementar a renda: apresentações artísticas e culturais, venda de objetos e itens de artesanato, além da visitação turística de suas aldeias.

Sob o ângulo da antropologia, podemos dizer que os indígenas, hoje, podem muito bem preservar suas tradições ao mesmo tempo em que se adaptam à realidade contemporânea, utilizando-a, inclusive, para potencializar a divulgação de seu modo de vida, de sua produção artesanal, do turismo sustentável. Em pleno século XXI, já passou da hora de enxergarmos o indígena como parte da cultura brasileira, incorporando-o à identidade nacional.

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

Foto: Aldeia Pataxó Hã-Hã-Hãe em Paraty/site Combate ao Racismo Ambiental

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