“Meu pranto rolou/Mais do que água/Na cachoeira/Depois que ela/Me abandonou”… até mesmo o poeta-diplomata Vinícius de Moraes sabia, mesmo talvez sem perceber, que a água da cachoeira leva embora tudo aquilo que é de ruim. Lava a alma, na verdade. Os versos da música Meu pranto rolou, eternizados na parceria com o músico Toquinho, poderiam muito bem ser cantados, bem baixinhos, nos finais de semana que me aventuro nas quedas d’água por Londrina e região.
Mais ainda. Eu poderia cantar ou filosofar outros versos tão importantes quanto esses, dizendo que na cachoeira rolou pelo curso do rio o estresse do dia a dia, as toxidades cotidianas, os problemas criados pelos outros, os desabafos das pessoas, as dores do coração, do corpo e da alma e muito mais. Nada melhor que uma água bem gelada para levar embora, para bem longe, tudo aquilo que não nos deveria pertencer, que não nos faz bem e que insistimos em guardar conosco.
A melhor época para visitar uma cachoeira, ao menos aqui no Norte do Paraná, que é onde eu conheço melhor, está na primavera: tempo ainda seco sem muitas chuvas e já com temperaturas mais elevadas. No verão, não dá. A temporada de chuva atrapalha, embarreia a água e a transforma em traiçoeira, com correntezas fortes. O outono-inverno também não. A água é muito gelada, apesar de ser período de seca, ideal para adentrar debaixo das quedas. Mas, talvez, seja justamente essa geladeira essencial para levar embora o que fomos deixar por lá.
Porque não precisa muito: basta um bom mergulho bem gelado para esfriar qualquer estresse. Até porque eu não vou até a cachoeira, depois de tantos desafios de uma estrada de terra, para não sentir a água cair em minhas costas e bater em minha cabeça. Depois, nessa época de frio, não precisa mais que ficar ali, sentadinho, meditando, apreciando a vista e ouvindo o barulho relaxante da água caindo e batendo na pedra. Não é isso que faz bem à alma?
Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.
Foto: Fábio Luporini

