Recentemente o Brasil assistiu à confirmação do primeiro caso de coronavírus no país. Pode ser que, da escrita desta coluna à publicação, outros casos também sejam confirmados. Para além da realidade e com uma dose de fake news, a reação das pessoas ao surto dessa nova doença tem sido desproporcional. Algo que, talvez, só não se compare à pandemia de gripe H1N1, em 2009. Mesmo assim, a questão que quero colocar aqui hoje é: por que essa reação de desespero, preocupação e tomada de medidas e cuidados não se dá com outras situações igualmente preocupantes?
Quer ver? Dados divulgados no ano passado mostram que o Brasil registra mais de 180 estupros por dia. E que 54% das vítimas têm até 13 anos. Em 2018, o país contabilizou 53 mil novos casos de Aids, mais da metade de todos os novos casos registrados na América Latina. Além disso, 135 mil brasileiros vivem com HIV e não sabem. E não para por aí: do total de assassinatos cometidos por aqui, entre 75% e 77% são de jovens negros. Em 2017, foi de 185 a cada 100 mil habitantes de homens jovens pretos e pardos. As mortes por homofobia também são altas: uma a cada 23 horas. E de mulheres? O Brasil é o 5º no ranking mundial de feminicídio.
Para todas essas situações, não há reação. Sabe por que? Porque estamos, infelizmente, acostumados a conviver com essa realidade. É algo que se tornou natural. E que não deveria ser, claro! Desde as piadinhas machistas, racistas ou homofóbicas que escondem a perversidade do preconceito e da violência, por mais simbólica que seja, até a naturalidade com que lidamos com os perigos da Aids e da dengue, por exemplo.
Aqui me refiro ao conceito de violência simbólica, empregado pelo francês Pierre Bourdieu, para quem existe na sociedade uma série de violências exercidas de forma moral ou psicológica, sem qualquer coação física. Mas, aí você me pergunta: esses dados apontados não são todos registros de violência física? Sim, são! Acontece que a gente não os sente porque estamos já anestesiados com a naturalidade da violência simbólica. Tudo isso foi absorvido ao longo do processo de socialização, ou seja, de como aprendemos a viver em sociedade.
Há uma esperança, no entanto. As gerações mais novas estão cada vez mais preocupadas com esse tipo de problema. E mais atentas à realidade que os circunda. Por isso, é importante entender que ouviremos sempre falar mais sobre esses assuntos, até como uma forma de combatê-los. Que a reação seja sempre proporcional ao tipo de dificuldade enfrentada!
Foto: Pixabay
Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.


Uma resposta
Essa questão vai muito além do novo vírus, em muitas ocasiões nos deparamos como nosso foco de atenção voltados às futilidades do dia a dia sem nos preocupar ou nos importar, ao menos não da forma como deveria ser, com as grandes mazelas de nossa sociedade moderna. Apenas uma observação, o Brasil ser o quinto país em números globais de feminicício por si só não é manchete para se destacar tendo por base apenas esse parâmetro, ora, aquele que até pouco tempo era o quinto país mais populoso naturalmente figurará entre a quarta e sétima posição global em qualquer aspecto que seja comum a todas as nações, ressalvas, claro, à necessidade de se discutir o tema com a profundidade e seriedade que o assunto exige.