Não tem jeito. Por mais que a gente repita frases motivadoras de que o mais importante é a beleza interior, a inteligência, o caráter ou sei lá o que, o mundo gira em torno da aparência. E isso não é de hoje. Vem desde muito tempo. Na Roma Antiga, por exemplo, o imperador César se divorciou de sua esposa, Pompeia, sob o argumento de que ela não deveria nem estar sob suspeita. Daí surgiu o ditado, repetido aos quatro cantos até hoje: “a mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.
Não é que o que dizemos por aí? Não basta que as pessoas sejam honestas, é preciso que elas pareçam honestas! Infelizmente essa máxima vem carregada de julgamentos pré-concebidos sob os quais se fundamentam falsas perspectivas sobre todos além de reflexos mentirosos e enganadores que insistimos em refletir. Talvez por isso haja tanta gente desconfiada uma da outra e tantas expectativas frustradas. Sabe por que? Porque no intuito de aparentar honestidade, colocamos a realidade em caixinhas padronizadas de comportamentos projetados socialmente.
Já ouviu a expressão: “nunca imaginei que você falasse palavrão”? Ou então: “quem te viu, que te vê”! Ou ainda: “jamais pensei que tudo isso fosse vir logo de você”. Essas são as frases prontas de quem valoriza mais a aparência do outro do que, verdadeiramente, a pessoa é. Sabe aquele íntimo que quase ninguém mais acessa além de nós mesmos? Pois bem. É justamente esse eu que se esconde atrás das paredes construídas em sociedade pela opinião ou percepção dos outros.
Mas, tenho de dizer uma coisa: nós jamais vamos nos libertar das aparências que temos de aparentar. É dolorido e revoltante. Entretanto, o simples fato de termos consciência de que o mundo funciona assim e de reconhecermos em que detalhes e situações estamos, tudo isso nos ajuda a minimizar o impacto das opiniões alheias sobre nós mesmos. Para o bem e para o mal. Veja que, mesmo que talvez César tivesse certeza da honestidade de sua esposa, divorciou-se assim mesmo porque ela não parecia honesta. E se tivesse tomado outra atitude?
Nunca saberemos. Porém, é exatamente ao poder escolher os caminhos que trilhar que nos tornaremos quem somos e pelo que seremos conhecidos mais adiante. Que caminho você quer escolher? Viver de aparências? Ou ligar a famosa tecla para o que os outros pensam? Afinal, é melhor deitar a cabeça no travesseiro e dormir com a consciência tranquila sobre quem somos ou perder noites de sono tentando construir quem jamais seremos?
Foto: Reprodução de parte do afresco Casa da Marte e Venere, em Pompéia, Itália
Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

