Carteirada: a filosofia ajuda a entender, jamais a justificar!

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Quanto mais o tempo passa, mais parece que a humanidade dá passos para trás. Não sei se é o fato de praticarmos, cada vez mais, atitudes vergonhosas ou se, por conta das redes sociais, termos acesso ao que já acontecia antes com a mesma frequência. Nos últimos meses o Brasil testemunhou diferentes atos que evidenciaram o famoso e abominável “jeitinho brasileiro”, ecoado no “você sabe com quem está falando?”. Esses sentimentos mesquinhos de quem precisa humilhar os outros para se sentir importante têm viralizado. Estamos vivendo numa sociedade doente?

Dar carteirada não é novidade, no Brasil. Policiais fazem isso nas baladas, restaurantes e outros estabelecimentos. Juízes fazem isso, sobretudo pra cima de servidores públicos que julgam menos importantes que eles mesmos. Políticos têm essa mania também. E gente com dinheiro, poder e sobrenome chique. Há pouco tempo, vimos um casal esbravejando com um agente público no Rio de Janeiro. Um desembargador desrespeitou um guarda municipal que lhe cobrou o uso de máscara de proteção contra o coronavírus.

E não para por aí. Um entregador de aplicativo de comida foi humilhado por um morador de condomínio de luxo. Assim como um policial que foi atender uma ocorrência de violência doméstica. E, mais recentemente, uma confusão entre clientes num restaurante chique em São Paulo deixou essa realidade ainda mais evidente. Mas, de onde vem tudo isso? O que fundamenta esse tipo de coisa? Nada justifica, é preciso registrar e deixar claro. Entretanto, a busca pelo poder ou a massagem no ego ajudam a entender.

De acordo com o sociólogo Max Weber, um dos três pilares da sociologia, o poder se legitima em três tipos: legal (por meio das leis e da burocracia estatal), tradicional (entre eles, o poder patriarcal) e carismático (através das qualidades da pessoa). Então, a partir daí fica fácil perceber porque algumas pessoas dão carteiradas: talvez porque sejam ou se sintam poderosas pelo simples fato de serem autoridades públicas (policiais, juízes, políticos, etc.), talvez porque se sintam no direito de mandar (pai, professor, médico, etc.) ou ainda porque se consideram queridas demais (artistas, jogadores de futebol, youtubers, etc.).

Infelizmente essa é uma realidade que está enraizada na sociedade brasileira, fruto de um tipo de colonização que, segundo Sérgio Buarque de Holanda, fez com que o Brasil e o brasileiro fossem de determinado tipo. E que vai demorar a se transformar. Mesmo assim, casos como os que aconteceram neste ano ajudam a conscientizar sobre o quão erradas e vergonhosas são as atitudes como essas.

Fábio Luporini

Sou jornalista formado pela  Universidade Norte do Paraná e sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) . Fui repórter, editor e chefe de redação no extinto Jornal de Londrina (JL), atuei como produtor na RPC (afiliada da TV Globo), fundei o também extinto Portal Duo e trabalho como assessor de imprensa e professor de Filosofia, Sociologia, História, Redação e Geopolítica, em Londrina.

Foto: Sarmad Mughal no Pexels

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