Velhos Bandidos e sua insolência temática

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Por Marcelo Minka

Entre os vários lançamentos da semana, meu palpite para o público londrinense é o filme Velhos Bandidos: não porque pareça o melhor filme em sentido absoluto, mas porque junta apelo popular, elenco fortíssimo e um assunto que conversa bem com o Brasil de agora, essa sensação de envelhecer num país que cobra resignação de quem já viveu demais.

O ponto de partida de Velhos Bandidos é excelente. O diretor Cláudio Torres (Redentor, 2004) arma uma comédia policial em torno de Marta e Rodolfo, vividos por Fernanda Montenegro (Central do Brasil, 1998) e Ary Fontoura (A Próxima Vítima, 1995): dois aposentados que decidem planejar um assalto a banco e, para isso, recrutam Nancy e Sid, interpretados por Bruna Marquezine (Besouro Azul, 2023) e Vladimir Brichta (Bingo: O Rei das Manhãs, 2017), enquanto um investigador obstinado, Oswaldo, vivido por Lázaro Ramos (Madame Satã, 2002), tenta fechar o cerco. É um dispositivo clássico de filme de golpe, mas com uma inversão muito brasileira: aqui o motor não é a adrenalina da juventude, e sim o cansaço acumulado da velhice.

Velhos Bandidos traz um ponto de partida excelente e mira na plateia buscando humor, velocidade e reconhecimento popular.
Fotos: Divulgação/Paris Filmes

O que torna Velhos Bandidos interessante, antes mesmo de qualquer juízo definitivo, é a sua insolência temática. O cinema costuma tratar personagens idosos com reverência, doçura ou melancolia. Este filme, ao menos em sua premissa e em seu marketing, prefere outra via: dá a eles desejo, cálculo, risco e desobediência. Isso é mais provocativo do que parece. Há algo quase político em imaginar que a terceira idade não queira apenas descansar, mas voltar a agir sobre o mundo, ainda que pelo crime e pela farsa. Num país obcecado por juventude e performance, a simples ideia de Fernanda Montenegro liderando um assalto já carrega um humor que nasce da inteligência, não da caricatura.

Velhos Bandidos deixa marca?

Mas aqui entra uma ressalva que importa. Elenco de peso não garante filme de peso. Às vezes, o cinema brasileiro comercial se apoia demais no carisma prévio dos atores e de menos na dureza do roteiro. Quando isso acontece, a obra vira vitrine simpática: agradável, vendável e esquecível. O risco de Velhos Bandidos está exatamente aí. Sua premissa é afiada, mas premissa boa é só promessa. O que decide tudo é se o filme realmente extrai tensão do encontro entre gerações ou se apenas empilha nomes queridos em volta de uma trama confortável. A questão crítica não é “funciona?”, mas “deixa marca?”.

Ainda assim, há algo de muito saudável em uma estreia brasileira que não pede desculpas por querer público. Velhos Bandidos parece mirar a plateia sem cinismo, buscando humor, velocidade e reconhecimento popular. E isso, no melhor sentido, também é uma forma de ambição. Talvez o filme não reinvente o gênero; talvez nem queira. Mas, num momento em que boa parte da cultura confunde ser frio com ser sofisticado, existe uma beleza particular em ver veteranos de nossa dramaturgia ocupando a tela com picardia, presença e fome de jogo. O cinema, no fim, também vive disso: da arte de roubar nossa atenção por noventa e poucos minutos. E poucos roubos são tão elegantes quanto os cometidos por atores que já não precisam provar mais nada a ninguém.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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