Por Marcelo Minka
No universo caleidoscópico da Marvel, Thunderbolts surge como uma ruptura cinza entre os brilhos coloridos dos heróis e as trevas viscosas dos vilões. Sob a batuta discreta e precisa de Jake Schreier (Cidades de Papel – 2015), o filme evoca não tanto o heroísmo, mas a culpa coletiva de um mundo onde redenção virou moeda rara e dissimulada.
A proposta — um grupo de figuras moralmente comprometidas reunidas pelo governo para realizar missões de alto risco — pode parecer familiar. E é. Mas o que Schreier opera aqui é mais uma anatomia do fracasso humano do que um desfile de músculos e CGI. O diretor, com uma sensibilidade quase melancólica, constrói um mosaico de personagens partidos, e nisso há uma beleza cruel.

Florence Pugh (Midsommar – 2019), como Yelena Belova, entrega uma performance feroz e irônica, mas carregada por dentro de dores que não cabem nas piadas. Ela ri, mas seus olhos denunciam um passado que ainda sangra. Ao seu lado, Sebastian Stan (I, Tonya – 2017), o eterno Soldado Invernal, vive Bucky Barnes como um fantasma de si mesmo — sua interpretação tem algo de Beckett: um homem esperando um perdão que nunca vem.
David Harbour (Hellboy – 2019), novamente como Guardião Vermelho, oscila entre a caricatura e o trágico, encarnando um passado soviético que virou piada no presente neoliberal. Já Wyatt Russell (Overlord – 2018), como US Agent, carrega uma tensão constante entre o desejo de validação e a brutalidade do ego ferido — sua figura parece sempre à beira do colapso ético. Julia Louis-Dreyfus (Veep – 2012–2019), como a maquiavélica Valentina Allegra de Fontaine, é uma esfinge política: enigmática, divertida, e profundamente perturbadora. Ela representa o sistema: manipulador, sorridente, insaciável.

Thunderbolts é um lamento dos anti-heróis
A ação, embora presente, é quase um pretexto. O verdadeiro embate se dá no terreno dos afetos estilhaçados, das decisões tortas que nunca se apagam. O filme nos força a confrontar o que acontece quando colocamos nossos erros lado a lado e os chamamos de “time”.
Thunderbolts não é um clamor por justiça. É um lamento. Uma carta escrita por anti-heróis que nunca pediram para ser salvos, apenas para serem compreendidos. Schreier dirige com mãos invisíveis, permitindo que as rachaduras dos personagens transpareçam, sem tentar colá-las com o verniz do heroísmo.
Talvez não seja o filme mais barulhento da Marvel, mas é certamente um dos mais humanos. Em um mundo sedento por salvadores, Thunderbolts nos lembra que, às vezes, tudo o que temos são pecadores tentando salvar uns aos outros — e que, no caos compartilhado, talvez exista uma centelha de graça.
fotos: Divulgação/Marvel Studios
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
Leia todas as colunas de Cinema
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

