Se Não Fosse Você: uma convocação ao diálogo

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Por Marcelo Minka

Como diria minha avó, nesse chove e não molha, faz frio, faz calor, estreou esta semana o drama Se Não Fosse Você, adaptação do romance homônimo da norte‑americana Colleen Hoover (livro mais vendido no Brasil, 2022), trazido às telas sob a direção de Josh Boone (A Culpa é das Estrelas, 2014).

A autora Colleen Hoover, figura‑chave na literatura contemporânea de massas, conquistou o topo da lista do New York Times diversas vezes, estabelecendo‑se como referência no que tange emoções extremas, segredos e traumas pessoais.

A história de Se Não Fosse Você gira em torno de Morgan Grant, interpretada por Allison Williams (Corra!, 2017), e sua filha adolescente Clara, vivida por McKenna Grace (Capitã Marvel, 2019), que enfrentam não apenas o luto por um acidente de carro fatal, mas também as rachaduras que o segredo de uma traição provoca na estrutura familiar. O filme propõe uma reflexão: até que ponto o passado nos define, e quanto podemos nos reinventar?

O enredo privilegia a tensão entre mãe e filha, uma dinâmica quase clássica de geração e ressentimento, mas com um viés mais sombrio: Morgan, que se tornou mãe ainda jovem, vive na sombra da repetição da história; Clara, por sua vez, rebela‑se contra as imposições e busca afirmar‑se, enquanto ambas se vêem atropeladas por uma tragédia que dilacera e, paradoxalmente, pode reconstruir. A adaptação cinematográfica preserva essa espinha central de Se Não Fosse Você, mas Boone opta por jogar o foco não apenas no drama externo, mas nos silêncios que corroem.

Se Não Fosse Você propõe‑se como um filme menor em escala, mas ambicioso em intenção, reunindo no elenco nomes como Mason Thames (O Telefone Preto, 2022), Dave Franco (Truque de Mestre, 2013) e Scott Eastwood (Corações de Ferro, 2014). A obra oferece o benefício de não se alojar no estereótipo do “drama‑festas” de livraria: ela quer confrontar o ressentimento materno, o claustro da culpa, o poder e o desamparo das relações humanas singulares.

Se Não Fosse Você é uma convocação para o diálogo entre mães e filhas, num drama desafia a crença de que se pode simplesmente “virar a página”
Filme Se Não Fosse Você – Fotos: Divulgação

Se Não Fosse Você tem a autora na produção

A autora Colleen Hoover, atuando ainda como produtora executiva, parece conferir à adaptação uma relação implícita, dialogando com seus leitores‑espectadores, sem concessões fáceis. Queridinha do momento do New York Times, Hoover ascendeu como fenômeno editorial ao tratar de temas como amor, perda, maternidade e traição, com volumes como “É Assim Que Acaba” (livro mais vendido no Brasil, 2018), antecedendo a obra aqui revisitada. Nesse sentido, a chegada de de Se Não Fosse Você ao cinema faz parte de um movimento mais amplo de levar ao visual narrativas centradas em mulheres, famílias e feridas que não se curam facilmente.

Se Não Fosse Você surge como uma convocação para o diálogo entre mães e filhas, entre segredos e confissões, entre o que se viveu e o que se quer viver, entre as novelas mexicanas que permeiam todas as famílias. Não espere alívio fácil nem redenção à primeira vista: o drama desafia a crença de que se pode simplesmente “virar a página”. Em vez disso, propõe que o que está por vir só se constrói se olharmos para o que nos assombra. Para fãs de novela das oito.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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