Por Marcelo Minka
Na terrinha vermelha, Resident Evil chega às telas com uma vantagem rara para uma franquia cercada por memória, expectativa e desgaste. Zach Cregger (A Hora do Mal, 2025) não demonstra interesse em administrar esse patrimônio. Seu filme entra em Raccoon City como quem invade um organismo contaminado, atento ao ruído, à matéria e àquilo que pode surgir no limite do enquadramento.
Bryan, interpretado por Austin Abrams (A Hora do Mal, 2025), transporta suprimentos médicos rumo ao Hospital Geral quando a cidade começa a revelar sua verdadeira natureza. O personagem não carrega a segurança habitual do herói treinado para a catástrofe. Seu corpo hesita, sua respiração denuncia o medo e suas decisões têm a precariedade de quem aprende as regras enquanto tenta permanecer vivo. Essa vulnerabilidade dá ao filme sua energia.
Cregger constrói o terror em Resident Evil a partir do espaço. Corredores parecem longos demais. Portas adquirem uma presença ameaçadora. Uma casa abandonada deixa de ser arquitetura e se transforma numa pergunta. A câmera não procura somente o monstro. Procura o instante anterior à certeza de que ele está ali. Nesse intervalo, o filme encontra sua melhor forma.

Em Resident Evil, a violência possui peso, textura e mau gosto no sentido mais produtivo da expressão. Carne, sangue e mutação voltam a provocar repulsa. O corpo humano perde estabilidade diante dos olhos do espectador. O humor surge dessa degradação física e da incapacidade de Bryan de transformar o pânico em pose. Abrams entende o personagem por inteiro. Sua atuação preserva o ridículo, a exaustão e o instinto, três elementos que tornam a sobrevivência mais interessante do que qualquer demonstração de valentia.
Resident Evil acerela e perde a tensão
Há uma queda de tensão quando Resident Evil celera e permite que o acúmulo de criaturas substitua parte do trabalho paciente feito anteriormente. A encenação continua segura, porém a ameaça perde densidade sempre que precisa disputar atenção com o espetáculo. Cregger recupera o controle ao insistir em Bryan como centro físico da experiência. Cada ferimento altera sua presença em cena. Cada erro permanece no corpo.
A recepção inicial ajuda a dimensionar o impacto. O Rotten Tomatoes registrava, na manhã de 18 de setembro, 96% de aprovação entre os críticos e 90% no Popcornmeter. O entusiasmo se concentra especialmente na direção de Cregger, no humor sombrio e na atuação de Abrams. Os números registram uma resposta imediata expressiva. O que permanece depois deles é mais interessante. O diretor encontrou uma forma cinematográfica para a vulnerabilidade que sempre sustentou o jogo.
Resident Evil termina sem oferecer conforto. Bryan sobrevive porque insiste, porque suporta e porque o corpo ainda responde quando já não deveria. Cregger leva essa ideia até o fim e recusa qualquer heroísmo fácil. Para nós, que chegamos ao cinema depois de uma semana em que instituições expõem suas próprias fraturas e a eleição aproxima ainda mais direita e esquerda do confronto nas urnas, essa sensação de viver cercado por tensão não chega a ser estrangeira. Em Raccoon City, continuar respirando já é uma vitória miserável. Por aqui, às vezes, também. O resto é sangue no chão.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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