Por Marcelo Minka
Mais um texto sobre filme de terror para a coluna, e nada mais propício, porque o filme é sobre uma família e concorre com os horrores que estamos presenciando durante a semana na vida real do país, o drama satanista de terror sobre aquela família e aquele pastor. Claro que este drama real é muito mais assustador do que qualquer produção cinematográfica, mas parece estar no fim (glória a Deus, Saravá, Kamisama arigato).
Mas vamos ao filme: Faça Ela Voltar mais parece um ritual de possessão emocional do que um simples entretenimento. Assinado pelos irmãos Danny e Michael Philippou — que já haviam demonstrado um apetite pelo horror psicológico em Fale Comigo (2022) —, o longa expande os limites do terror contemporâneo ao mergulhar em temas como trauma, luto e a fragilidade dos laços familiares.
A trama se desenrola com a morte do pai de Andy, interpretado por Billy Barratt (The Islander, 2022) e Piper (Sora Wong, em seu primeiro grande papel), na pele de uma menina cega cuja percepção aguçada do mundo parece antecipar o mal iminente. São levados a viver com Laura – Sally Hawkins (A Forma da Água, 2017), cujo isolamento e comportamento errático são o primeiro sinal de que algo está profundamente errado. Na mansão mofada que parece respirar, os jovens descobrem algo que pode mudar o rumo das vidas de todos, mas a um preço altíssimo.
Terror sem sustos fáceis

O filme não se entrega aos sustos fáceis. Os Philippou sabem que o verdadeiro horror nasce da tensão acumulada, das pausas carregadas de silêncio e do olhar deslocado de uma personagem que já viu demais. Sally Hawkins, que em As Aventuras de Paddington (2014) mostrou sua versatilidade para o drama leve, entrega aqui uma performance inquietante: sua Laura é ao mesmo tempo vítima e agente do caos, maternal e monstruosa, quebrada por dentro e ainda assim perigosa. Não é um papel fácil, e Hawkins o habita com uma convicção que remete às grandes performances do gênero.
A mise-en-scène é outro trunfo do filme. A casa, com sua arquitetura esquelética e iluminação difusa, transforma-se em personagem própria — viva, pulsante, faminta. Os enquadramentos claustrofóbicos e os ruídos dos ambientes colaboram para um estado de alerta constante. Há ecos de Hereditário (2018), de Ari Aster, na forma como o terror se infiltra pelo drama familiar, e lembranças de O Orfanato (2007), de J.A. Bayona, em seu uso da infância como catalisadora do medo.
Se nos Estados Unidos a crítica recebeu o filme com entusiasmo — com altos índices de aprovação no Rotten Tomatoes —, é porque ele consegue algo raro: ser emocionalmente devastador e narrativamente coerente. Não há gordura na história, nem soluções fáceis. O clímax, longe de resolver os conflitos, os transforma em feridas abertas que o espectador carrega para fora da sala de cinema. A violência, quando chega, não é gratuita: é catártica, necessária, e ao mesmo tempo arrasadora.
Em meio a tantos terrores genéricos que saturam o mercado, Faça Ela Voltar se destaca como obra que respeita a inteligência e a sensibilidade do público. Há filmes que vêm para assustar — e há os que vêm para nos assombrar muito depois da última cena, assim como muitas personalidades públicas da vida real.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
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