O Outro Lado das Redes: bom drama jornalístico

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Por Marcelo Minka

O Facebook sabia. Conhecia os danos provocados por seus algoritmos, tinha pesquisas sobre a saúde mental de adolescentes e informações sobre a disseminação de discursos extremistas. Mesmo assim, os mecanismos que alimentavam esses problemas continuaram funcionando. A empresa de Mark Zuckerberg transformou a atenção humana num negócio bilionário e descobriu que a indignação era particularmente lucrativa. É dessa contradição, entre o conhecimento dos danos e a decisão de preservar o negócio, que Aaron Sorkin constrói O Outro Lado das Redes. O mais assustador nessa história é que os responsáveis não precisavam descobrir o que estava acontecendo. Precisavam decidir se estavam dispostos a interromper aquilo que já sabiam.

Escrito e dirigido por Sorkin (Os 7 de Chicago, 2020), o longa dramatiza a investigação que deu origem à série de reportagens The Facebook Files, publicada pelo The Wall Street Journal em 2021. A engenheira Frances Haugen, interpretada por Mikey Madison (Anora, 2024), decide entregar documentos internos ao jornalista Jeff Horwitz, vivido por Jeremy Allen White (O Urso, 2022). O material revela uma companhia muito mais preocupada em preservar seu modelo de negócios do que em enfrentar as consequências de suas próprias decisões.

Sorkin continua sendo um roteirista extraordinariamente hábil na construção de diálogos. Suas personagens discutem, interrompem, argumentam e disputam cada informação com uma velocidade que transforma reuniões e conversas em confrontos. A investigação ganha ritmo e clareza. O problema aparece quando essa necessidade de explicar tudo começa a sufocar o próprio cinema. O roteiro entrega suas conclusões prontas, sublinha intenções e deixa pouco espaço para que o espectador descubra alguma coisa por conta própria.

Mikey Madison é o grande acerto do elenco de O Outro Lado das Redes. Sua Frances Haugen combina inteligência, convicção e uma vulnerabilidade que impede a personagem de se transformar numa heroína de cartilha. Jeremy Allen White acompanha bem essa energia, especialmente nos momentos em que a relação entre fonte e jornalista ganha tensão. Já Jeremy Strong (Succession, 2018) interpreta Mark Zuckerberg com uma rigidez quase mecânica. A escolha torna o empresário uma figura desagradável, mas também simplifica um personagem cujo poder seria muito mais inquietante se não estivesse tão próximo da caricatura.

A comparação com A Rede Social (2010), dirigido por David Fincher, é inevitável. Sorkin escreveu os dois filmes, mas agora assume também a direção. E a diferença é considerável. Fincher entendia que enquadramentos, silêncios e movimentos de câmera podiam revelar tanto quanto os diálogos. Aqui, mesmo com a fotografia de Jeff Cronenweth, falta uma identidade visual capaz de acompanhar a complexidade do assunto. A encenação frequentemente se limita a ilustrar aquilo que o roteiro já explicou.

O aspecto político é o que sustenta a relevância de O Outro Lado das Redes. A ideia que as plataformas oferecem espaço neutro para circulação de opiniões é desmontada pelo funcionamento dos algoritmos
Fotos: Divulgação

O aspecto político é o que sustenta a relevância de O Outro Lado das Redes. A ideia de que as plataformas apenas oferecem um espaço neutro para a circulação de opiniões é desmontada pela própria lógica de funcionamento dos algoritmos. Escolher o que será amplificado, recomendado ou escondido é exercer poder editorial. E quando essas escolhas favorecem conteúdos capazes de provocar medo, ódio e ressentimento, suas consequências deixam de pertencer exclusivamente ao ambiente digital.

As redes e as interferências na disputa eleitoral

No Brasil, conhecemos bem essas consequências. As eleições de 2018 expuseram a força da desinformação disseminada pelas redes sociais, especialmente pelo WhatsApp. Oito anos depois, o problema continua presente, agora acompanhado de questionamentos sobre o próprio funcionamento das plataformas durante a disputa eleitoral.

Em outubro de 2026, o Conselho de Supervisão da Meta apontou falhas recorrentes na aplicação das regras eleitorais e criticou restrições técnicas que atingiram a conta de anúncios da campanha de Lula. O Tribunal Superior Eleitoral cobrou garantias de tratamento igualitário entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. A Meta atribuiu os episódios a falhas técnicas e negou qualquer favorecimento político deliberado.

Não existe comprovação de que Zuckerberg tenha ordenado a manipulação de uma eleição brasileira. E é justamente aí que a denúncia do filme se torna mais inquietante. O problema ultrapassa as intenções pessoais de seu fundador. Uma empresa privada controla sistemas capazes de alterar a circulação de informações políticas e afetar a comunicação de candidatos com milhões de eleitores. Zuckerberg não precisa ocupar um cargo público para exercer um poder que alcança o funcionamento da democracia.

Sorkin acerta ao recuperar a importância do jornalismo investigativo e a coragem de quem decidiu enfrentar uma organização bilionária. Erra ao transformar uma questão estrutural numa disputa moral excessivamente simplificada. A indignação do diretor é legítima, mas sua insistência em explicar e condenar acaba enfraquecendo a força dramática de uma história que já era suficientemente assustadora. O Outro Lado das Redes seria mais contundente se confiasse um pouco mais na inteligência do público e menos na eloquência de seu próprio roteiro.

O Outro Lado das Redes é um bom drama jornalístico, sustentado por atuações convincentes e por um assunto de enorme gravidade. Como cinema, fica aquém de suas ambições. Seu maior problema está na satisfação moral que oferece ao espectador. A coragem de Frances Haugen, a investigação do jornal e a exposição dos documentos produzem uma sensação de vitória que os acontecimentos posteriores não autorizam. As denúncias vieram a público, as autoridades exigiram explicações e Zuckerberg continuou no comando. O que vemos hoje nas disputas eleitorais brasileiras demonstra que os mecanismos de poder denunciados permanecem ativos. A investigação revelou o funcionamento da engrenagem, mas não conseguiu desmontá-la. O filme termina. O negócio continua.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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