Por Marcelo Minka
Insaciável chega aos cinemas da terrinha vermelha em um momento especialmente favorável ao terror. O gênero vive uma de suas fases mais fortes junto ao grande público e deixou de ocupar apenas o espaço do entretenimento de nicho. Hoje, o terror reúne bilheteria, prestígio crítico e uma capacidade rara de dialogar diretamente com as inquietações do presente.
Dirigido por Natalie Erika James, Insaciável parte de uma premissa extrema para falar de uma obsessão absolutamente cotidiana: a insatisfação com o próprio corpo. A personagem central, uma estudante de medicina, encontra em um método radical de emagrecimento a promessa de alcançar a imagem que deseja. A partir daí, o corpo deixa de ser apenas presença física e passa a funcionar como território de conflito, desejo, controle e destruição.
O filme se insere com clareza na retomada contemporânea do body horror, vertente do terror que transforma o corpo em matéria narrativa. David Cronenberg consolidou essa linguagem ao relacionar carne, tecnologia, doença e desejo. Décadas depois, filmes como A Substância atualizaram essa tradição ao associá-la à juventude, à beleza e à pressão estética. Insaciável segue pelo mesmo caminho, concentrando sua força na ideia de que o corpo contemporâneo se tornou um projeto permanente de correção. E dá-lhe Mounjaro.
Essa é uma das questões centrais do nosso tempo. O corpo já não parece suficiente em sua condição natural. Ele precisa ser mais jovem, mais magro, mais definido, mais simétrico, mais fotografável, instagramável. As redes sociais ampliaram essa lógica ao transformar a própria imagem em objeto de observação contínua. O indivíduo passa a se enxergar também pelo olhar imaginado dos outros. Insaciável leva essa dinâmica ao limite e revela sua dimensão monstruosa.
O interesse atual pelo terror nasce justamente dessa capacidade de transformar tensões abstratas em imagens concretas. O gênero sempre cumpriu essa função. Cada época produz os monstros correspondentes aos seus próprios medos. O expressionismo alemão carregava as marcas de uma Europa traumatizada, o cinema dos anos 1950 respondeu à ameaça nuclear e à Guerra Fria com invasões e mutações, o terror dos anos 1970 absorveu a crise das instituições, a violência social e a desconfiança política, enquanto o terror contemporâneo volta seu olhar para a intimidade.

Insaciável e os monstros modernos
Os monstros atuais estão na família, na memória, na identidade, na tecnologia e no próprio corpo. Corra! transformou o racismo em mecanismo de horror. Hereditário fez do trauma familiar uma presença física. Fale Comigo aproximou o sobrenatural da solidão e da necessidade de pertencimento. A Substância converteu o culto à juventude em grotesco corporal. Insaciável acrescenta a essa linhagem o desejo compulsivo de adequação física.
Existe também uma razão cinematográfica para o sucesso do gênero, o terror ainda oferece uma experiência que ganha força dentro da sala escura. O som, o silêncio, a expectativa e a reação coletiva potencializam uma relação física com o filme. Somos dominados pelo consumo doméstico de imagens e essa intensidade devolve ao cinema parte de sua condição de acontecimento.
O sucesso do terror, portanto, não indica apenas um gosto crescente pelo medo. Indica a procura por filmes capazes de provocar sensação, discussão e reconhecimento, o público encontra no gênero imagens para ansiedades que fazem parte de sua própria experiência, mesmo quando essas imagens aparecem deformadas pelo fantástico.
Insaciável funciona dentro dessa lógica com uma metáfora especialmente precisa. Sua personagem consome algo na tentativa de transformar o próprio corpo e termina confrontada pela força destrutiva desse desejo. Em nossa cultura, fundada na promessa constante de aperfeiçoamento, o horror começa exatamente no ponto em que melhorar deixa de significar viver melhor e passa a significar jamais aceitar aquilo que se é. Bendita Eli Lilly.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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