Heróis demais, heroísmo de menos

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Por Marcelo Minka

Esta semana não houve qualquer lançamento relevante nos cinemas da terrinha vermelha. Em vez de forçar entusiasmo por um filme que não o merece, decidi escrever sobre uma presença constante no cinema contemporâneo. O herói. Nunca vimos tantos heróis capazes de salvar cidades, planetas e universos. Ainda assim, poucas vezes nos sentimos tão desamparados diante do mundo real.

Estou relendo O Herói de Mil Faces, obra em que Joseph Campbell identifica uma estrutura recorrente nas narrativas mitológicas. O herói abandona o mundo conhecido, atravessa provações, enfrenta a morte simbólica, transforma-se e retorna numa última etapa decisiva. A jornada não termina com a vitória, o herói precisa voltar e oferecer à comunidade aquilo que conquistou.

O cinema comercial apropriou-se dessa estrutura e a empobreceu, conservando o chamado, os obstáculos e a batalha final, mas abandonando o retorno. Seus heróis derrotam o inimigo, recebem aplausos e seguem para a próxima continuação, salvam o mundo sem reconstruí-lo. Acumulam poderes, mas raramente adquirem sabedoria, demonstrando que a transformação interior foi substituída pelo espetáculo.

George Lucas compreendeu a força do mito ao criar Guerra nas Estrelas (1977). Luke Skywalker não era apenas um jovem enfrentando um império, ele representava a passagem da imaturidade para a responsabilidade. Em Matrix (1999), Neo também abandona a realidade conhecida e desperta para outra ordem do mundo. Nos dois casos, o herói responde a um chamado que exige renúncia. O problema começou quando Hollywood transformou essa estrutura simbólica em manual de roteiro e passou a reproduzi-la mecanicamente.

O cinema transformou os heróis. Eles derrotam o inimigo, recebem aplausos e seguem para a próxima continuação, mas salvam o mundo sem reconstruí-lo
Fotos: Divulgação

Formas verdadeiras de heroismo

Não faltam heróis ao nosso tempo. Faltam formas verdadeiras de heroísmo. Estamos cercados por figuras públicas apresentadas como salvadoras, líderes que prometem resolver sozinhos problemas coletivos, empresários tratados como visionários infalíveis e celebridades transformadas em autoridades morais. Essa necessidade de acreditar num indivíduo excepcional revela uma sociedade que desaprendeu a confiar em ações comuns e responsabilidades compartilhadas.

O cinema também começou a desconfiar do próprio herói. Em Duna Parte Dois (2024), Paul Atreides assume a aparência do escolhido, mas sua ascensão expõe o perigo da fé depositada num salvador. O filme não celebra apenas a jornada. Ele mostra como profecias podem ser fabricadas, como multidões podem ser conduzidas e como o desejo de libertação pode produzir novas formas de domínio. Já em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), o heroísmo não nasce da força física nem de uma eleição divina. Nasce da capacidade de reconhecer o outro, reparar vínculos e interromper a violência.

Campbell continua fundamental, desde que não transformemos sua leitura em lei universal. Nem toda cultura organiza suas narrativas em torno de um homem excepcional que parte, conquista e retorna. Existem heroínas, comunidades, sobreviventes e personagens cuja grandeza consiste em cuidar, resistir ou permanecer. O mito continua vivo quando aceita novas experiências humanas, mas quando se torna fórmula, morre.

Não precisamos abandonar os heróis. Precisamos julgá-los melhor. O verdadeiro herói não é aquele que se coloca acima dos outros, mas aquele que atravessa a escuridão e retorna capaz de viver novamente entre eles. O cinema revela os heróis que admiramos, mas também denuncia as responsabilidades das quais desejamos escapar.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.

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