Por Marcelo Minka
O novo filme de Alejandro González Iñárritu (Birdman, 2014), começa na zona obscura em que riqueza, poder e espetáculo deixam de ser coisas diferentes. Digger Rockwell, o magnata do petróleo interpretado por Tom Cruise (Magnolia, 1999), não quer simplesmente sobreviver à catástrofe que ajudou a produzir, mas quer ser reconhecido como o único homem capaz de nos salvar dela. Seu verdadeiro combustível não é o petróleo e sim a necessidade de ser indispensável.
Neste ponto a farsa de Iñárritu encontra a política americana contemporânea. Em Digger, o presidente vivido por John Goodman (Barton Fink, 1991), com sua gravata vermelha, sua retórica inflada e um entorno de homens que parecem permanentemente preparados para uma fotografia de poder, não é Donald Trump. A associação pertence à iconografia, a hipérbole, a autoridade transformada em performance, a certeza de que qualquer crise pode ser vencida desde que exista um homem suficientemente grande diante das câmeras. Num segundo governo Trump em que energia, petróleo, gás e a exploração do Ártico voltaram ao centro do discurso econômico americano, a caricatura deixa de parecer apenas caricatura. O absurdo cinematográfico encontra uma realidade que aprendeu a falar a mesma língua.
O problema e o interesse de Digger é que Iñárritu parece fascinado demais pelo monstro que criou. Cruise desaparece sob próteses, barriga, cabelo rarefeito e um sotaque texano deliberadamente excessivo, mas preserva aquilo que sempre tornou sua presença tão singular, a fé física no próprio personagem. Durante décadas, seu cinema foi construído em torno de homens que correm, escalam, pilotam e impedem o desastre. No filme ele interpreta o homem que causou o desastre e ainda assim acredita merecer o papel de herói. É uma inversão particularmente venenosa da persona de Cruise.

Ao redor dele, Riz Ahmed (Sound of Metal, 2019) representa a racionalidade científica condenada a explicar fatos para pessoas que já decidiram quais fatos desejam ouvir. Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda, 2023), por sua vez, participa de um universo em que até a consciência ecológica corre o risco de se transformar em produto, pose ou capital moral. Iñárritu não poupa os donos do petróleo, mas tampouco concede inocência confortável ao restante do sistema.
Digger é obra para produzir atrito
Visualmente, Digger quer ser tão colossal quanto seu protagonista. Há algo de ópera do fim do mundo em sua encenação, além de uma dificuldade persistente em distinguir intensidade de profundidade. A sátira frequentemente anuncia sua intenção antes que a imagem consiga produzi-la. O filme fala alto, gesticula, insiste. Em alguns momentos, parece temer que o espectador não entenda a piada, em outros, é justamente quando cala um pouco que se torna mais perturbador.
A divisão aparece também na recepção. O Rotten Tomatoes registra 54% de aprovação da crítica, a partir de 184 resenhas, e 65% entre o público verificado. Não surpreende. Digger é uma obra feita para produzir atrito, para alguns, uma sátira ambiciosa e feroz e para outros, uma provocação pesada demais para a própria inteligência.
O ponto mais incômodo do filme está justamente na pergunta que surge quando a caricatura termina. Digger é grotesco porque acredita poder destruir, possuir e depois salvar o mundo. Só que homens assim raramente surgem sozinhos, eles precisam de acionistas, eleitores, consumidores, câmeras e aplausos. Iñárritu cava à procura de um vilão e, quando a pá finalmente bate no fundo, encontra uma plateia. Deus nos salve. Domingo tem eleição.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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