Por Marcelo Minka
Coração Selvagem chegou mostrando a imagem que Brad Pitt vende, facilmente, mais uma aventura de sobrevivência. O filme entrega isso. Avião destruído, frio, ferimentos, animais selvagens e quilômetros de isolamento. David Ayer (Corações de Ferro, 2014) parte de uma fórmula conhecida e consegue extrair dela algum peso.
A sobrevivência perde o verniz de prova de força e ganha outra dimensão quando James percebe que preparo militar, resistência física e orgulho têm alcance limitado diante do isolamento. O interesse de Coração Selvagem nasce justamente desse desgaste. Quanto mais o personagem perde controle sobre a situação, mais Brad Pitt encontra espaço para trabalhar cansaço, medo e dependência sem transformar tudo em demonstração de sofrimento.
Brad Pitt (Era Uma Vez em Hollywood, 2019) interpreta James Belmont, veterano das Forças Especiais que sobrevive a um acidente de avião e fica perdido no Alasca com Odin, seu cão de combate. A história poderia escorregar sem resistência para o sentimentalismo de almanaque. Homem ferido. Cachorro fiel. Natureza cruel. Lágrimas garantidas. Ayer chega perto disso algumas vezes, mas Pitt impede que o filme afunde. Sua atuação recusa o espetáculo do sofrimento. James sente dor, tem medo, perde forças e depende do animal ao seu lado. É justamente quando Brad Pitt deixa de interpretar Brad Pitt que Coração Selvagem cresce.

O que salva Coração Selvagem
Odin não está ali para arrancar lágrimas baratas. Ele é personagem. Observa James, reage ao perigo, toma decisões e estabelece uma relação que o roteiro consegue tornar física antes de torná-la emocional. O vínculo funciona porque não precisa ser explicado o tempo inteiro. O cachorro não humaniza James. Ele expõe a fragilidade que James passou a vida escondendo. Essa diferença salva o filme.
Ayer ainda carrega velhos hábitos. Existe uma atração evidente pelo homem machucado, pelo soldado endurecido, pelo corpo masculino levado até o limite. Em Coração Selvagem esse fetiche perde força diante de algo mais interessante. James não sobrevive porque é o sujeito mais preparado da floresta. Sobrevive porque precisa confiar em outro ser vivo. Para um diretor acostumado a filmar homens transformando violência em identidade, essa mudança tem peso.
O filme também força a mão. Alguns perigos aparecem com a precisão de um despertador narrativo. O computador denuncia sua presença em certos animais. A trilha insiste em avisar quando chegou a hora da emoção. São escolhas que diminuem um filme muito melhor quando confia no rosto cansado de Pitt, no corpo atento de Odin e no silêncio do Alasca. A aventura funciona. O excesso atrapalha.
A crítica recebeu Coração Selvagem com entusiasmo. Nesta sexta, o Rotten Tomatoes registra 88 por cento de aprovação em 95 críticas. A reação destaca principalmente a atuação contida de Pitt e a relação entre James e Odin. Também há ressalvas à fórmula conhecida, à repetição e ao sentimentalismo. É uma leitura justa. Coração Selvagem não reinventa o cinema de sobrevivência. Ele encontra vida dentro de uma fórmula que já parecia domesticada.
No fim, a floresta é o problema mais simples de James Belmont. O verdadeiro território hostil está naquele homem educado para resistir a tudo e incapaz de admitir que precisa de companhia. Coração Selvagem entende isso e acerta onde dói. O animal mais difícil de salvar não é o cachorro.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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