Por Marcelo Minka
Em A Odisseia, Christopher Nolan transforma o poema atribuído a Homero em matéria viva, física e brutal, atravessada pelas obsessões que acompanham sua filmografia: o tempo, a memória, a culpa, a identidade e a dificuldade de regressar ao lugar de onde se partiu.
O resultado é um épico de quase três horas que recupera a escala monumental do cinema sem confundir grandiosidade com decoração. Nolan não filma a Antiguidade como uma sucessão de paisagens destinadas ao deslumbramento turístico. O mar, as embarcações, as pedras e os corpos possuem peso, temperatura e resistência, onde cada conquista carrega o rastro de alguma perda.
Matt Damon interpreta Odisseu, o Ulisses da tradição latina, rei de Ítaca que tenta voltar para casa depois da Guerra de Tróia. Sua viagem, que no poema homérico se estende por dez anos, coloca-o diante de monstros, divindades, tentações e naufrágios. Nolan organiza esses episódios como fragmentos de uma consciência marcada pela guerra. Seu Odisseu é um comandante obrigado a conviver com as consequências de suas decisões. Damon oferece ao personagem uma presença sólida, desgastada e contida. Seu corpo carrega a força do guerreiro, enquanto o rosto registra o cansaço de quem já compreendeu que sobreviver não significa sair ileso.
A escolha altera o centro moral da narrativa clássica da Odisseia. O heroísmo deixa de ser uma qualidade estável e passa a ser uma questão incômoda. O que resta de um herói depois da guerra? Que homem retorna quando aquele que partiu já não existe? Nolan encontra nessas perguntas o verdadeiro motor do filme.
A estrutura fragmentada, marca constante de sua filmografia, surge aqui de maneira orgânica. Em Amnésia, de 2000, o tempo era destruído pela falha da memória. Em A Origem, de 2010, diferentes camadas temporais conviviam dentro do sonho. Em Dunkirk, de 2017, três durações ocorreram durante uma operação militar. Em Oppenheimer, de 2023, a história individual era despedaçada por lembranças, depoimentos e julgamentos. Em A Odisseia, o próprio ato de narrar reorganiza a experiência vivida.
Odisseu é também um contador de histórias. Sua identidade depende daquilo que conta sobre si mesmo e da forma como transforma derrotas em episódios de coragem. A narrativa funciona como proteção e como disfarce. Nolan compreende que a obra de Homero trata da fabricação de um homem por meio das histórias contadas sobre ele.

A presença dos deuses recebe tratamento controlado. Em vez de construir um espetáculo mitológico dominado por efeitos digitais, o diretor aproxima o sobrenatural da percepção humana. Os deuses existem como forças que interferem na realidade, mas também como imagens do medo, do desejo e da culpa. A fronteira entre intervenção divina e perturbação psicológica nunca se torna confortável.
Zendaya interpreta Atena, divindade que protege Odisseu; Charlize Theron assume o papel de Calipso; Samantha Morton vive Circe. As três personagens representam formas distintas de poder e de conhecimento. Ainda assim, a adaptação permanece concentrada na experiência masculina do retorno. As mulheres ocupam posições fundamentais, mas recebem menos espaço dramático do que a complexidade do poema permitiria. Essa redução constitui uma das limitações mais evidentes do roteiro de Nolan.
Anne Hathaway, como Penélope, impede que Ítaca seja apresentada apenas como o destino abstrato de uma viagem. Sua personagem não fica congelada no papel da esposa que espera. Penélope administra uma casa invadida por pretendentes, preserva sua autoridade e enfrenta uma ordem social que pretende apagar a ausência de Odisseu transformando-a em viuvez política.
Tom Holland interpreta Telêmaco, o filho que cresceu sob a sombra de um pai convertido em lenda. Sua busca consiste em descobrir se existe um homem por trás do mito recebido desde a infância. Robert Pattinson, no papel de Antínoo, principal pretendente de Penélope, fornece ao conflito em Ítaca uma ameaça concreta, calculada e profundamente humana.
A fotografia de Hoyte van Hoytema, colaborador de Nolan desde Interestelar, reafirma uma ideia abandonada por grande parte dos grandes estúdios, a de que a imagem cinematográfica não precisa ser domesticada para caber em qualquer tela. A Odisseia foi filmado integralmente com câmeras IMAX, e essa decisão não funciona como mero argumento publicitário. A escala modifica a relação entre personagem e paisagem. O mar é uma força que reduz o homem à sua verdadeira dimensão. As imagens ganham monumentalidade sem perder materialidade. O vento atinge as velas, a água invade as embarcações, a terra fere os pés. Mesmo as criaturas mitológicas participam de um mundo submetido à gravidade. Nolan procura o extraordinário dentro do concreto, fazendo do realismo físico a porta de entrada para o mito.

A trilha de Ludwig Göransson amplia a tensão, sustenta o movimento e, nos momentos decisivos, converte a viagem em experiência interior. A montagem de Jennifer Lame preserva a intensidade ao longo dos 173 minutos, embora o filme revele uma concentração desigual. Alguns episódios recebem força e duração excepcionais, outros passam rapidamente, como estações obrigatórias de uma trajetória conhecida.
O principal conflito de A Odisseia
Essa irregularidade expõe o principal conflito da adaptação, condensar uma obra fundadora da literatura ocidental sem reduzi-la a uma coleção de acontecimentos célebres. Nolan vence quando abandona a obrigação de ilustrar Homero e assume o direito de interpretá-lo. Perde força quando o filme se ocupa em confirmar que determinado monstro, ilha ou personagem também está presente.
O uso de linguagem contemporânea e de sotaques norte-americanos causou discussão antes mesmo da estreia. A decisão rompe com a convenção hollywoodiana que obriga gregos, romanos e personagens históricos a falar um inglês britânico solene. Matt Damon com sua voz aproxima o herói do homem comum e retira da Antiguidade a camada artificial de respeitabilidade que o cinema costuma impor a ela. Nada na Grécia de Homero soava britânico. A tradição do sotaque inglês nos épicos históricos é uma construção cinematográfica, não uma exigência de autenticidade.
O ponto mais forte de A Odisseia está justamente na recusa em tratar o mito como passado encerrado, apresentando a viagem de Odisseu como a experiência de todo homem que tenta regressar depois de atravessar uma transformação irreversível. Voltar para casa significa confrontar a distância entre a lembrança do lar e o lugar que continuou existindo durante a ausência.
Christopher Nolan realizou um filme sobre monstros, deuses e guerreiros, mas seu verdadeiro tema é o retorno impossível. Odisseu deseja chegar a Ítaca, embora a guerra já tenha destruído o homem que saiu de lá. A casa permanece. Penélope permanece. Telêmaco tornou-se adulto. O tempo não esperou pelo herói. A viagem termina quando Odisseu alcança sua ilha. A odisseia começa quando ele precisa descobrir quem voltou.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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