Políticas culturais são um conjunto de iniciativas e medidas de apoio institucional (aqui pensamos na Administração pública) no sentido de fomentar o estímulo do desenvolvimento simbólico material e imaterial da sociedade. A grosso modo, isso se dá através do financiamento de projetos culturais e criação de leis de benefício fiscal para esse fim. E a cultura é uma ferramenta importantíssima, não apenas para o desenvolvimento do ser humano, mas para auxiliar na inclusão social e mesmo para o desenvolvimento econômico.
Talvez um dos melhores exemplos disso seja o que foi dado pela cidade de Gateshead, situada no nordeste da Inglaterra. Gateshead era uma cidade mineradora, que vinha perdendo habitantes que preferiam migrar para outros lugares em busca de novas oportunidades. Talvez, hoje, ela fosse uma dessas cidades quase desertas ou que parecem ter parado no tempo, não fosse a excelente política pública para o desenvolvimento das artes como chamariz para novos investimentos na região. A busca por um escultor que criasse uma obra gigante que pudesse ser a nova marca da cidade começou em 1990. Quatro anos depois, quando o artista Antony Gormley foi anunciado para tocar o projeto, muitas pessoas criticaram a escolha do lugar e da escultura: um anjo vermelho gigante, de vinte metros de altura e com asas de 54 metros de diâmetro em um polo de minério de carvão?
O governo desembolsou milhares de libras para envolver a comunidade com o projeto, criando cursos de artes, promovendo palestras e o contato direto com o artista e outros profissionais da área. Assim, os moradores da cidade puderam compreender o projeto e acolher a escultura – hoje tão importante para Gateshead quanto a Estátua da Liberdade é para Nova York. E o lugar deixou de ser lembrado por suas minas de carvão e passou a ser reconhecido como polo artístico e esportivo, sendo referência inclusive na área da arquitetura. Polo cultural que atrai milhões de turistas e com isso muitas libras também, o que aumenta inclusive a angariação de impostos… Um ciclo nada vicioso, saudável para a cidade e para o país.
Alguém consegue imaginar um projeto desses aqui? Em 30 anos trabalhando com artes eu nunca vi nada, nem de perto, parecido com isso!
Politicas culturais não são servem apenas para abrir locais, é preciso manter esses espaços de forma adequada. Vai além de liberar orçamento, é preciso ter gente qualificada. Londrina não é pobre de profissionais, mas sofre com pessoas com pouquíssima visão sobre o que representa para a cultura desse Estado e para o País.
Não existem sequer curadores e críticos (profissionais que escolhem e tem capacidade de avaliar as obras que vão para uma exposição ou para o acervo dos museus), no sentido de haver um mercado para as artes, que ajude os artistas locais a se desenvolverem e fomentar também o desenvolvimento das artes visuais por aqui.
Não existe um levantamento do registro visual dos artistas, nem espaços adequados para expô-los. Não temos galerias decentes e as únicas que funcionam aqui espalham o conceito preconceituoso e torto de que na cidade não existem profissionais competentes e atuantes. As universidades não se interessam por profissionais daqui e “seus olhos” só enxergam o que vem de São Paulo e Rio de Janeiro, como se só essas cidades existissem.
Governantes se acham no direito de modificar os projetos públicos de artistas a seu bel prazer – como aconteceu com a escultura de Henrique Aragão, que teve a iluminação modificada porque um dos prefeitos queria reinaugurar a obra para fazer propaganda política.
Casos de “descaso” pululam por aqui. Só para citar um deles: a extinta sala Antônio Teodoro, que antes era na Secretaria da Cultura e agora é apenas uma sala na Biblioteca Pública (biblioteca, aliás, que precisa de reformas faz tempo).
Existia em alguma gaveta, perdido, um projeto para transformar a secretaria em uma galeria com várias salas de exposições e para cursos de arte. Nunca saiu da gaveta.
O Museu de Arte é outra atrocidade política! O prédio feito por Villanova Artigas, um arquiteto famoso na Europa, está literalmente caindo aos pedaços, cheio de infiltrações e com o espaço completamente mal utilizado. O museu foi totalmente descaracterizado quando o separaram da praça que fazia parte do projeto e instalaram aquelas grades horrendas. Se o museu ainda existe é por trabalho dos artistas locais e dos funcionários – que a meu ver são heróis e heroínas.
Um museu sem montador, sem curador, sem museólogos, sem material básico, sem recursos, sem preservação, sem futuro!
Nos anos 80 e 90, tivemos a galeria Banestado, influente e atuante, na avenida Bandeirantes. Depois de um tempo, o banco foi vendido para o Itaú – que por sua vez pediu para a Secretaria de Cultura manter um pessoa na galeria para que o pessoal da instituição pudesse se encarregar do resto (lembrando que o Itaú possui um instituto cultural importantíssimo, e Londrina poderia fazer parte disso e ter na cidade uma das galerias mais representativas do País). O que aconteceu? Nada. Não há interesse da administração pública municipal em criar políticas culturais para movimentar esse setor. A galeria ainda está lá…fechada há anos. E os artistas sem lugar para expor.
Para quem não acredita nisso, é só passar pelo prédio do Itaú. Fica pertinho do Hospital Evangélico. Até onde sei, ninguém se dispôs a conversar com o instituto e fazer um projeto para a cidade.

Alias, Londrina é a cidade do mal-acabado. Alguém sabe que o lago Igapó foi projetado por Burle Marxs? A rodoviária por Oscar Niemeyer, alguns prédios foram feitos por Villanova Artigas e por aí vai. Pois bem, o projeto do lago nunca foi totalmente executado, Niemeyer se recusou a assinar o projeto depois que governantes dessa cidade mudaram seu projeto várias vezes, já detonaram várias casas do Villanova….projetos descaracterizados que não podem contar com as benesses garantidas às obras que figuram como parte do acervo desses artistas.
Arte e cultura também trazem dividendos, Europa e Estados Unidos já descobriram isso faz tempo! Arte gera dinheiro para os artistas, para a cidade e, consequentemente, para todos os cidadãos.
Fazer propaganda política com ela e depois dizer que “arte não dá dinheiro” é mais uma forma de corrupção assassina do nosso querido Brasil.
Londrina tem o perfil de polo cultural! Pena que a luta tem sido em vão… Falta muito para as coisas mudarem realmente. Mudanças requerem esforço, esforço requer pesquisa, suor, trabalho, recursos. Nenhum governo medíocre quer seu povo são… Pessoas dentro da caixinha, doentes e que acreditam que o país não tem mais jeito, dão mais lucro. E assim caminhamos, nessa bela semana de sol, pelas ruas da cidade! Mais tristes, tudo vai ficando em preto e branco…
Imagens: Site da Prefeitura de Gateshead
Foto da maquete da rodoviária de Londrina retirada do blog História de Londrina
Angela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.
