Dói nos olhos e na alma ver famílias inteiras famintas, numa fila, à espera de doações de ossos de animais. A fome, que atinge hoje 19,1 milhões de brasileiros , não pode e não deve ser vista como “normal” . Estamos num nível em que a banalização da pobreza foi normalizada. E não, não pode.
Não é de hoje que restos de alimentos são pegos em filas por gente faminta. Nas portas das Ceasas da vida é “comum” se deparar com as filas de famílias de sacolas na mão. E lá até acho válido, já que aqueles alimentos provavelmente virariam comida de animais. Mas ossos?
Quando eu era menina, morei próxima a um frigorífico. De casa ouvia o mugido dos animais morrendo. Naquela época, não tinha morte sem sofrimento, como é hoje. Os animais chegavam em boiada e passavam na porta de casa. De longe se ouvia os cascos batendo no chão. A poeira levantava e o gente corria pra fechar portas e janelas.
Nessas ocasiões, meus irmãos costumavam ajudar no trabalho do matadouro e tirar uns trocos. Voltavam pra casa com um dinheirinho e muitos miúdos de gado. Era rim, coração, língua. Minha mãe fazia e a gente comia com gosto. Deve ser por isso que não tenho frescura com comida.
Como dobradinha com prazer. Principalmente a que a minha sogra faz.
Mas a questão não é essa. A questão é que a fome está batendo na porta de mais gente do que antigamente. Antes, bem ou mal, a comida chegava na mesa. Inteira. E não como agora em que até o tradicional arroz com feijão chegam fragmentados. Comida pra bicho servindo gente.
Minha mãe falava que o melhor tempero para a comida é a fome. Ditado dos antigos. Hoje em dia, o melhor tempero para a fome é o emprego.
Raquel Tannuri Santana

É jornalista, fotógrafa e cronista. Escreve esta coluna de segunda, com assuntos de primeira.
Foto: Leroy Skalstad por Pixabay

