Precisamos falar das NoMo’s

noMO

Um tema está ficando cada vez mais comum entre mulheres da nova geração: não querem ter filhos. A opção precisa ser respeitada numa sociedade que ainda cobra maternidade como obrigação

Juliana Nunes

Equipe O LONDRINENSE

“Toda mulher nasce para ser mãe”. Será mesmo? “Se não for para procriar, a mulher não tem o que fazer no mundo”. Se não tiver o que fazer, ela inventa. “Você precisa ter filhos para não passar a velhice sozinha”. Mas, e se o que ela quer é justamente paz e sossego para aproveitar o que resta da vida? “Você só vai encontrar o amor de verdade quando tiver um filho”. E o amor próprio, não conta? “Uma mulher só é completa ao tornar-se mãe”. Só por ser mulher, já somos completas.

Com um tema bastante polêmico e controverso, vamos falar sobre as ‘NoMo’ – uma abreviação do inglês No Mothers, ou Não Mães – que trata de uma nova geração de mulheres que estão, cada vez mais, enfrentando a sociedade com o único propósito de mostrar que todo ser humano deve ser livre para tomar suas próprias decisões e fazer as escolhas que melhor lhe convém, sem ter que se preocupar com a opinião alheia.

O novo termo reivindica “o respeito de uma sociedade fundamentada na absurda crença de que uma mulher tem de dar à luz pelo menos uma vez na vida”, conforme argumenta a Gateway Women – associação britânica, com sede no Reino Unido, que oferece suporte a mulheres que não querem ter filhos, e uma das principais responsáveis pela popularização do assunto no mundo.

Nunca antes na história deste país se falou tanto sobre o papel da mulher na sociedade, e isso já é um grande avanço. No entanto, o simples fato de uma mulher expor seu desejo em não querer ser mãe, já é motivo para inúmeras discussões, grande falta de respeito e de compaixão com os anseios alheios. Não deveria, mas é assim que é. “Se uma mulher não quer ter filhos, ela deve ser execrada da sociedade”, é o que afirmam os mais radicais.

Não estamos aqui discutindo as dores e as delícias da maternidade, os instintos femininos, os sonhos de uma mulher em querer ter uma família perfeita, ou daquela profissional que almeja ser bem-sucedida no trabalho e como mãe ao mesmo tempo. A grande maioria o faz, e com louvor. E não há nada de errado com isso. A questão aqui é que não é mais aceitável afirmar que toda mulher nasce para ser mãe. Como vovó já dizia, “ser mãe é um dom”, e isso deveria começar a ser melhor tratado como um direito à liberdade de escolha e, principalmente, com mais respeito por toda a sociedade.

Para a psicóloga clínica Juliana Leoncio Bordin, com o passar dos anos houve, de fato, uma significante mudança no comportamento das mulheres em relação à maternidade. “O grande marco na história, nas diferentes formas de pensar das mulheres e dos homens, foi decorrente da inserção da mulher no mercado de trabalho, quando ocorreu uma mudança de papel e isso colaborou com o adiamento do desejo em ter um filho, ou até excluiu essa vontade. Surgiram outras possibilidades para essa mulher e para o casal, que perceberam a maternidade não mais uma como uma prioridade”, explica. Além disso, alguns fatores como o contato com grupos de pensamentos diversos, religião, cultura e influência de familiares, podem ter contribuído com a formação dessa nova identidade.

Segundo a psicóloga, trata-se de um assunto tão significativo e importante que deve ser conversado desde o início de um relacionamento, para que o outro tenha noção do que esperar. Eventualmente, essa vontade pode mudar. Mas, a mulher não deve se sentir pressionada a fazer algo que ela não quer e o respeito deve vir acima de tudo.  “A decisão deve ser principalmente da mulher, pois é ela que tem no seu corpo toda a responsabilidade de gerar vida e ter condições psicológicas e físicas em cuidar do recém-nascido. O objetivo é renunciar ao agrado de terceiros e evitar traumas e arrependimentos”, aconselha Juliana.

Além disso, é preciso procurar se conhecer e perceber se está seguindo uma tendência, sendo influenciada por alguém ou algum modismo. De acordo com ela, uma vez descartadas essas possibilidades e a mulher perceber que o sentimento é honesto e verdadeiro, o recomendado é o enfrentamento dessa decisão e o sustento da sua verdade.

A psicóloga ainda explica que, como não é possível controlar as pessoas com suas opiniões, argumentos e pressões, o diálogo continua sendo o melhor caminho para se fazer entender e adquirir o merecido respeito sobre suas diferentes escolhas. Mas, um bom tratamento psicológico é sempre recomendado, caso a mulher esteja em estado de sofrimento, passando por constrangimentos ou dificuldades para lidar com essa importante decisão.

O lado obscuro que ninguém comenta

A socióloga israelense Orna Donath lançou, em 2015, o livro ‘Mães Arrependidas’, onde apresenta o depoimento de 23 mulheres, mães (algumas já avós) que, apesar de não terem rejeitado a maternidade, se pudessem voltar atrás, o fariam. Segundo Donath, a pressão social sobre a maternidade é muito grande, e o resultado pode ser o arrependimento. Isso nada tem a ver com o amor dessas mães pelos seus filhos, mas sim com a frustração em relação às expectativas em torno da maternidade.

Em entrevista à revista Cult, em março de 2018, a escritora afirmou que é importante ouvir cuidadosamente as mães arrependidas, sem estigmatizá-las como irresponsáveis, nocivas, desleixadas ou loucas, como forma de reduzir o sofrimento na vida delas e de seus filhos. “Também pode dar mais espaço de manobra às mulheres que não são ou não sabem se querem ser mães – para que possam decidir por conta própria, já que apenas elas sabem o que querem ou o que não querem; o que são capazes ou não de fazer, e são as únicas que melhor sabem quais são as suas circunstâncias sociais, comentou.

É preciso, sim, debater e tratar de um tema tão pouco discutido, sem rótulos ou preconceitos, para que a maternidade possa ser tratada e vivida por mulheres que sonham em ser mães, de maneira plena, prazerosa, com as alegrias, tristezas, medos e descobertas que tem que ser vivida. Mas, acima de tudo, é preciso também tratar o tema sem “falso romantismo” para que, as tantas outras mulheres que não se encaixam neste padrão, possam se sentir com a mesma plenitude e satisfação de viver.

O que dizem as envolvidas

Andressa não quer ser mãe (Foto: Acerco pessoal)

A professora Andressa Aparecida de Souza, de 28 anos, é casada há quatro anos (mas está com o mesmo companheiro, seu primeiro namorado, há mais de 10) e afirma que não quer ter filhos, nem cogita a possibilidade de um dia adotar, pois nunca se reconheceu como mãe. Segundo ela, não foi uma decisão tomada em algum momento da vida, por qualquer razão que seja. A maternidade nunca fez parte de seus planos. “Nunca tive este sonho e não acredito no estereótipo de que mulheres nasceram para ser mães. Acredito que a mulher tem o direito de escolher o seu futuro, essa é uma decisão que só cabe a ela”, enfatiza.

Andressa conta que, apesar de não conviver muito com crianças – dá aulas para adolescentes – tem uma relação tranquila com os pequenos, não tem nada contra. Quando questionada sobre sua reação diante de uma possível gravidez acidental, ela afirma que aceitaria e faria de tudo para tentar ser uma boa mãe e cuidar bem da criança, mas que, definitivamente, este não é um projeto para sua vida. “Tenho preceitos cristãos e valores éticos que carrego da minha formação familiar. Tenho certeza absoluta que não iria conseguir conviver com um aborto, por exemplo, e acredito que eu conseguiria amar a criança em um processo natural, como toda mulher que se torna mãe. Reprogramaria minha vida para essa nova fase e seguiria em frente, com a ajuda do meu esposo”, relata.

Apesar de falar abertamente sobre o assunto com a família e amigos que, em sua maioria, não a julgam, evita tocar no assunto com alguns que exprimem sentimentos de repreensão. Para ela, não é aceitável dar satisfações a quem quer que seja, sobre algo que envolve diretamente seu corpo e sua vida. “Eu acredito que as pessoas têm que pensar que cada um tem um jeito de ser feliz. Às vezes é difícil imaginar que, o que para nós é muito perfeito e maravilhoso, para outra pessoa pode não ser. Acredito que as pessoas são livres para viverem da melhor forma possível e se adaptarem no processo de viver”, afirma.

Já a também professora C.R. (que não quis ser identificada) – de 34 anos e que mora atualmente com o companheiro – revela que, ao contrário de Andressa, devido sua profissão, tem muita proximidade com crianças: “Eu gosto, não tenho nenhum sentimento ruim em relação às crianças, só não quero ter uma responsabilidade por outra pessoa. Só de pensar na ideia me apavoro”. E, quando questionada sobre como reagiria diante de uma gravidez acidental, é enfática ao afirmar que, possivelmente, optaria pela interrupção da gravidez.

A entrevistada ainda conta que a decisão já nasceu com ela, nunca foi influenciada por nada, nem ninguém. “Isso nunca passou pela minha cabeça, nem mesmo quando criança me interessava em brincar com bonecas. Sempre ouvi das pessoas que ia mudar de ideia, que meu corpo ia mudar, ia pedir, que o instinto ia falar mais alto. Mas, até hoje nada mudou. Continuo não querendo ter filhos”, insiste.

Sobre as dificuldades em conviver com essa decisão, ela afirma que também sofre muitas ofensas, julgamentos e preconceitos, mas que isso nunca a abalou, continua falando abertamente sobre o tema com amigos e familiares, principalmente porque seu companheiro também compartilha do mesmo desejo de não ter filhos.

Para C., a ideia de ter filhos para não passar a velhice sozinha é puro egoísmo, é não pensar no desejo do próximo, é não dar o direito de escolha à pessoa. Se a ideia principal é criar os filhos para o mundo, é para lá que eles devem ir. “Não acho certo criar um filho para que ele cuide de você no futuro. Além disso, como você vai ter certeza de que quando for idoso ele vai mesmo cuidar de você? A gente vê por aí um monte de velhinhos abandonados nos asilos, que tem um monte de filhos que não os vão visitar. Então, acho que isso é relativo, não é motivo pra justificar a maternidade”, pontua.

E, em concordância com o que relatam outras mulheres que compartilham do mesmo sentimento, encerra reafirmando que: “É um direito meu, uma escolha minha, é a minha vida e acabou por aí. Se eu puder deixar um recado às mães que me leem, digo, com todo o respeito, para que vocês se ocupem cuidando de seus filhos, que eu me ocupo cuidando da minha vida. Estou muito feliz assim e pretendo continuar dessa forma”.

foto: Burst

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse