Por André Luiz Lima
Quando era criança, fui ver O Pequeno Príncipe no cinema — e é incrível como aprendemos com as histórias. Algumas ficam guardadas, poderosas como estrelas, dentro da gente e, sem perceber, seguimos a vida iluminadas por elas. Na arte dos encontros, sigo viajando como quem passa de planeta em planeta.

Cada um com sua paisagem própria: mundos de asfalto quente, mundos de terra vermelha, mundos de areia fina, mundos de lama pesada, mundos de grama macia, mundos onde chove quase sempre, mundos cheios de montanhas, mundos com vulcões inquietos, mundos planos como um suspiro, mundos de sol intenso e mundos de tempestades inesperadas.
E, em alguns desses mundos, encontro símbolos que parecem deixados ali só para mim — como o poder de uma rosa branca surgindo sozinha no meio da paisagem. Uma rosa que não pede nada, apenas existe. E, sem dizer palavra, me lembra que delicadeza também é força. E que aquilo que cuidamos com atenção acaba cuidando de nós.
Assim, de órbita em órbita, vou vivendo essa grande experiência de atravessar lugares — e pessoas — que me transformam. Às vezes dá vontade de dizer como um viajante cansado: “Por favor, quero descer.” Mas continuo. Porque tem horas em que o vento acalma, o céu clareia, e algo dentro de mim sussurra: “Agora que estou bem, não desço nem que insistam.”

Dividimos este planeta com tantos outros seres, cada um com sua própria estrada. Às vezes nos encontramos; às vezes nos desviamos. Às vezes queremos controlar o caminho do outro; às vezes nem ouvimos o que o outro tem a dizer sobre a sua jornada.
E, às vezes — tantas vezes — eu mesmo me perco na minha forma de me expressar, por não permitir o encontro…por não perceber (ou perceber tarde) que o outro pode caminhar ao meu lado, e que podemos conversar sobre as rotas que cada um percorreu.
No fim, estamos todos tentando fazer essa experiência dar certo, cada qual ao seu modo. E muita gente, no meio do caminho, levanta as mãos e diz: “Não me corte as asas. Eu preciso voar.” Se você não puder me acompanhar, ao menos me deseje sorte. Eu sigo — só não me desvie do caminho.
E talvez seja justamente por caminhar por tantos lugares que alguns encontros parecem casuais — mas, no fundo, são como aqueles momentos poderosos em que o Pequeno Príncipe dizia: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante.” São convites da vida. Convites para ver o outro — e, sobretudo, para ver a nós mesmos.
Dias atrás, encontrei alguém muito inteligente. Daqueles que conhecem números, teorias e caminhos que eu ainda nem imaginei. Carregava consigo um brilho firme, daqueles que a razão sabe acender poderosamente. Mas o que me marcou não foi o que ele sabia. Foi o que ele lembrava.

Ele não falou sobre as técnicas que eu domino, nem sobre os trabalhos que já fiz. Ele se lembrava da minha escuta. Da minha presença. Da forma como eu estava — e não da forma como eu me mostrava. E aquilo me fez pensar nas palavras do aviador quando falava do Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos.”
Porque, naquele encontro, percebi exatamente isso: o que fica nas pessoas não é o que exibimos, mas o que oferecemos. Não é o currículo, mas a delicadeza. Não é a performance, mas a verdade silenciosa que carregamos quando estamos inteiros.
Mas depois desse encontro, vieram também camadas mais profundas. Percebi, por trás da inteligência e da capacidade, dores antigas. Relacionamentos que aprisionam. Padrões emocionais repetidos. Silêncios que adoecem. Corpos que somatizam aquilo que a alma não consegue mais carregar.
Potência não impede sofrimento
E na volta para casa — caminhando a pé, com um chuvisco leve que lavava a cidade — algo se esclareceu dentro de mim. Potência não impede sofrimento. Conhecimento não impede aprisionamento. Brilho não impede escuridão.
Pessoas incríveis também se perdem em padrões. Pessoas sensíveis também se escondem de si mesmas. Pessoas brilhantes também se encontram presas em relações que diminuem sua luz.
E eu, ali, caminhando no meu silêncio, percebi algo simples e profundo: Todos nós estamos aprendendo a viver. Todos nós estamos tentando sair das repetições que nos ferem. Todos nós estamos buscando permissão para ser.
Eu estava com demandas internas — ajustar o cobrar, o receber, o permitir — e, ainda assim, percebi que caminhava leve. Não porque minha vida estivesse perfeita, mas porque eu estava inteiro naquele instante. Eu comigo. E esse “eu comigo” foi revelador.
Percebi que o que me faltava não era capacidade — era permissão. Permissão para ocupar meu espaço. Permissão para expressar quem eu sou. Permissão para prosperar. Permissão para deixar cair padrões que já não me servem.
Enquanto voltava para casa, fiz algo muito simples: comprei açúcar. E essa simplicidade me emocionou. Porque, dentro daquele gesto cotidiano, havia um símbolo bonito: adoçar o café de amanhã é acreditar que amanhã importa. É acreditar que posso continuar. É acreditar que mereço doçura… e coloquei açúcar no café.
O verdadeiro poder da expressão
Engraçado como, às vezes, até o açúcar desperta julgamentos — como se o gosto do outro ameaçasse alguma regra invisível. Mas ali não era sobre café: era só sobre permitir-me existir do meu jeito. E talvez seja esse o verdadeiro poder da expressão: Não é falar bonito. Não é saber tudo. Não é impressionar ninguém.
É estar inteiro no mundo, mesmo no meio do caos. É deixar que a alma respire sem edição. É permitir que padrões caiam, mesmo quando ainda não sabemos o que virá depois. É caminhar com leveza entre chuviscos e certezas novas. É assumir que viver é um ato de coragem e poder — e um ato de criação.
Hoje, eu reconheço: Expressar é libertar. E libertar-se é permitir-se viver a própria vida — não a vida que o mundo programou. Enquanto caminhava naquela noite, olhando o céu cinza e sentindo a chuva como um batismo suave, algo se afirmou dentro de mim:

Viva a vida, André.
Viva a vida como ela vem. Viva a vida que se revela nos encontros, nos silêncios, nos aprendizados. Viva a vida que te leva de volta para você mesmo.
E que cada pessoa que ler estas palavras também encontre um pouco dessa permissão dentro de si, como quem encontra, no meio do caminho, a delicadeza inesperada de uma rosa branca.
Por isso nasce meu podcast O Poder de Se Expressar: um lugar para escutar, rir, sentir e perceber que, no fundo, todos estamos só buscando um jeito verdadeiro de ser no mundo.
E, enquanto trocamos, algo sempre nos toca e talvez, quem sabe, até nos aponte um novo caminho.
André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.
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Respostas de 6
Lindo texto. Grande abraço
Que bom que esta lendo a coluna e deixando seu comentário. Muito obrigado. Abraços
Como sempre, fico na espera da tua
matéria..cada vez me surpreende!!! Grata
Paola
Obrigado por estar sempre presente. Grato!!!!
Lindo texto que me faz viajar pelas suas histórias.
Esperando pelo próximo.
Besitos
Vamos viajar no encontros Dani. Obrigado por acompanhar a coluna. Besitos