Os fios invisíveis dos encontros

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Por André Luiz Lima

Na arte dos encontros, sempre existe uma mensagem para você e outra para mim. Basta ter olhos para ver e coração para sentir.

Há cidades que não nos pedem pressa. Elas nos pedem escuta.

Em Ouro Preto, entre pedras, ladeiras e silêncios, comecei a perceber que talvez o Brasil mais profundo não esteja nos roteiros turísticos, mas nas pessoas que ainda sustentam presença e encontros em meio à velocidade do mundo.

Começo a perceber que cada encontro verdadeiro deixa um fio. Às vezes quase invisível, mas ele permanece
Fotos: acervo pessoal

Não foi a arquitetura que mais me atravessou. Foram as mãos. As mãos das mulheres que bordam. As mãos que restauram imagens antigas. As mãos que cozinham, acolhem, cantam e contam histórias sem transformar tudo em espetáculo.

Existe algo acontecendo nesses encontros que não cabe na lógica do consumo rápido. E talvez seja justamente isso que eu venha buscando há algum tempo: experiências que não sejam apenas vistas, mas vividas.

Hoje fala-se muito em experiência. O turismo vende experiência. As redes sociais vendem experiência. Mas seguimos, muitas vezes, acumulando imagens sem realmente atravessar nada.

Talvez experiência seja outra coisa. Talvez experiência seja aquilo que nos desloca internamente. Aquilo que desacelera o olhar. Aquilo que devolve presença. Aquilo que devolve cor.

Porque a cor não está apenas nas paredes coloniais de Ouro Preto, nos tecidos, nos pigmentos ou nos fios. A cor também aparece quando alguém volta a sentir o mundo de verdade.

E esse fio, que comecei a tatear entre as ladeiras de Minas, esticou-se até encontrar novos territórios

Na sexta-feira, vivi algo que reforçou profundamente essa percepção durante uma longa visita ao Parque Geminiani Momesso de Arte Brasileira P_Arte, em Ibiporã, no Paraná. Foram horas de conversa, escuta e atravessamento humano. Voltei de lá com uma alegria difícil de explicar, dessas que não vêm do excesso, mas do encontro verdadeiro.

Ali, arte, território, educação, expressão e presença não apareciam separados. Tudo parecia ligado por um mesmo fio invisível. E talvez tenha sido justamente isso que mais me emocionou: perceber pessoas construindo espaços onde a sensibilidade ainda pode respirar.

Tive encontros significativos com pessoas que, de maneiras diferentes, pareciam sustentar o mesmo desejo: criar conexões reais em um mundo cada vez mais acelerado. E isso me fez perceber, mais uma vez, que talvez o extraordinário esteja justamente no humano.

E talvez seja justamente essa a imagem que mais vem me acompanhando nos últimos tempos: os fios. Os fios do bordado. Os fios das histórias. Os fios que ligam pessoas, cidades, memórias e experiências.

Começo a perceber que cada encontro verdadeiro deixa um fio. Às vezes quase invisível. Mas ele permanece. Um fio que sai de uma bordadeira em Ouro Preto e encontra um artista em solo paranaense. Que atravessa uma conversa silenciosa. Que passa pelas mãos de quem ainda faz as coisas com presença. Que conecta pessoas que talvez nunca se encontrassem sem esse chamado mais profundo do sensível.

Talvez o Brasil Extraordinário que procuro seja exatamente isso: uma grande trama humana ainda viva. Não o Brasil do excesso. Nem o Brasil transformado apenas em produto ou consumo rápido. Mas o Brasil das presenças. Dos saberes delicados. Das pessoas que ainda sustentam humanidade em pequenos gestos. Dos encontros.

E talvez também das pessoas que ainda conseguem sustentar alegria. Não uma alegria superficial ou performática. Mas uma alegria viva, serena, quase artesanal. A alegria de quem encontra sentido no que faz. A alegria de quem ainda consegue olhar, ouvir, criar, cozinhar, bordar, cantar e compartilhar tempo sem transformar tudo em pressa.

Expressão como forma de existência

Tenho pensado muito sobre expressão. Não apenas como fala ou comunicação, mas como forma de existência. Bordar pode ser expressão. Restaurar pode ser expressão. Cozinhar pode ser expressão. Escutar alguém profundamente talvez também seja. No fundo, talvez “O Poder da Expressão” esteja justamente aí: na coragem de existir com verdade em um tempo que constantemente nos empurra para a superficialidade.

Saio desses encontros com a sensação de que existem lugares, pessoas e projetos que não querem apenas mostrar algo ao mundo. Querem criar vínculos, consciência, presença, memória e cor.

Porque talvez o mundo ainda precise disso: mais cor nas relações, mais verdade nos encontros e mais humanidade na forma como atravessamos a vida.

E talvez a experiência mais rara hoje seja justamente essa: não passar pelos lugares — mas permitir que eles passem por nós.

Viva a Arte dos Encontros!

Viva a Vida, André!

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

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Uma resposta

  1. Muito oportuno e significativo esse texto de André Luiz, sabemos que a apreciação é comunicativa, ela precisa de um observador/apreciador que a interprete e contextualize. No conjunto das complexidades cada vez maiores, nos cabe menos ação e mais introspeção, contemplar e nos conectar conoscco/ consigo para antes exercer o olhar apreciador. Acredito que o Instituto Luciano Momesso propicie esses intervalos contemplativos

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