2026: o que permanece quando tudo muda  

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Por André Luiz Lima

Na arte dos encontros, vamos definindo rotas, despedimo-nos de caminhos, reconhecemos o que fica para trás e escolhemos o que levamos conosco. Seguimos caminhando. E as mãos que hoje se levantam para serem contadas são, todas elas, mãos de tempos de transição.

Este início de 2026 chega mais sensível.

Pessoas se despedindo.
Outras chegando.
Algumas se preparando em silêncio.
Outras aprendendo a nomear o que sentem.
Outras ainda sem saber o que fazer — e tudo bem.

Estamos todos no mesmo barco, em momentos diferentes da travessia, mas juntos no movimento.

2026 chegou mais sensível. Mas o que assusta nas transições não é o que muda. É o que deixa de funcionar.
Fotos: Acervo pessoal

Há um equívoco recorrente quando falamos de tempos de transição. Costumamos acreditar que o medo vem da mudança em si — de um novo ano, de um novo ciclo, de um novo cenário social ou profissional. Mas não é exatamente isso.

O que assusta nas transições não é o que muda.
É o que deixa de funcionar.

Quando algo muda, ainda existe movimento.
Quando algo deixa de funcionar, existe silêncio, vazio, suspensão de referências.

É nesse intervalo que o desconforto nasce.

Transições raramente são anunciadas com clareza. Elas chegam como uma sensação difusa: o que antes fazia sentido já não sustenta; o que antes organizava já não orienta; o que antes dava segurança agora soa repetitivo, frágil ou artificial. Isso vale para relações, carreiras, modelos de sucesso, discursos espirituais, estruturas sociais — e até para a forma como nos reconhecemos.

Mas há algo que costuma passar despercebido nesses momentos:
nem toda presença se perde quando alguém vai.

Algumas presenças ficam de outro jeito.
Ficam no gesto que aprendemos observando.
Na palavra que seguimos dizendo.
Na coragem que herdamos sem perceber.

A ausência também pode ser uma forma de presença.

Há encontros que continuam acontecendo — mesmo quando já não há corpo, agenda ou voz. Há presenças que permanecem porque foram verdadeiras.

Talvez seja por isso que certas músicas atravessam o tempo. Elas não pertencem a uma época específica — pertencem a um estado. Sonhos não envelhecem não fala apenas de sonhos, mas dessa dimensão viva que insiste em permanecer, mesmo quando tudo ao redor parece mudar de forma.

O medo surge porque fomos educados para a estabilidade, não para a travessia. Aprendemos a operar sistemas, mas não a escutar quando eles falham.

Por isso, em períodos de transição, cresce a busca por previsões, alertas, discursos duros, verdades prontas. Não porque tragam mais verdade — mas porque aliviam a angústia de não saber. O medo simplifica. A presença exige maturidade.

Chamamos de “crise” aquilo que, muitas vezes, é apenas perda de forma. Uma forma que cumpriu seu papel já não consegue conter a vida que quer passar por ela. Insistir nela gera rigidez. Abrir espaço para o novo gera insegurança. E é exatamente aí que a travessia acontece.

Anos como 2026, tão citados com receio, não pedem preparação baseada no pânico. Pedem algo mais raro: presença.
Presença para sentir.
Presença para escutar.
Presença para sustentar o que ainda não tem nome.

É nesse ponto que os encontros se tornam essenciais.

Não encontros apressados, utilitários ou performáticos — mas encontros capazes de sustentar o campo entre as pessoas. Lugares onde não é preciso saber tudo, nem responder rápido demais. Onde a palavra pode ser viva, o silêncio respeitado e a escuta real.

A arte sempre fez isso.
A conversa profunda sempre fez isso.

Criar campos de encontro sempre foi uma das formas mais antigas de atravessar o desconhecido sem se perder completamente de si. É a partir dessa compreensão que nasce esta coluna: A arte dos encontros.

Há tempos em que não precisamos ser empurrados para a frente, nem explicados até o fim. Precisamos de alguém que sustente o meio do caminho. Alguém que caminhe junto enquanto a vida se reorganiza.

A expressão, nesse contexto, deixa de ser técnica ou ferramenta.
Torna-se campo.
Um espaço onde o que está confuso pode ser dito, onde o corpo pode ser escutado, onde o silêncio também é linguagem.

Não para acelerar processos, mas para acompanhá-los.
Não para salvar, mas para sustentar.

Porque atravessar, muitas vezes, é apenas isso: não estar sozinho enquanto se aprende a dar o próximo passo.

Talvez o verdadeiro convite dos tempos de transição não seja se proteger do que vem, mas aprender a permanecer — com cuidado, presença e escuta — enquanto o chão se rearranja.

Porque atravessar não é sobre correr.
É sobre sustentar.

Talvez esta coluna também seja um convite.
Um convite para quem sente que atravessar sozinho já não faz mais sentido.
Para quem percebe que alguns processos pedem presença compartilhada, escuta e tempo.

Ao longo de 2026, pretendo criar encontros — conversas, caminhadas, viagens, experiências — onde essa travessia possa acontecer de forma viva.
Sem fórmulas prontas.
Sem pressa.
Com presença.

Cada um atravessa à sua maneira, no seu tempo.
Como escreveu Hermann Hesse, cada homem deve encontrar seu próprio caminho.
Talvez a arte dos encontros seja justamente essa: caminhar juntos, sem roubar do outro a experiência do próprio passo.

Viva a vida, André.
Viva a arte dos encontros.

André Luiz Lima

Londrinense, ator, diretor, professor, palestrante e produtor cultural.

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Respostas de 4

  1. Que texto espetacular! Me identifiquei de cara! Precisamos estar presentes pois na verdade é o único tempo real que temos, o “presente”. Não é uma tarefa fácil pois sempre estamos buscando ou no passado ou no futuro, respostas para que nosso presente faça sentido. A resposta é sobre sentir, experimentar, apreciar e acredito que a arte é um tipo de GPS que nos guia para esse caminho que buscamos! Meu amado amigo André, parabéns pelo texto e conte comigo para grandes experiências em 2026!

  2. Que texto maravilhoso, quanta verdade, e profundidade.
    Sim, atravessar, não recuar, avançar dando seus próprios passos, sem temer,…..
    E viva Arte dos encontros ….

  3. Que texto lindo André, realmente as vezes somos só uma transição na vida de alguém, que 2026 seja repleto de textos assim maravilhosos …que venha 2026 com muitas novidades.

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