Raquel Santana (*)
Na mochila dois pares de calças jeans e algumas camisetas. Um único par de tênis, algumas meias, tudo enrolado no sonho de ser jornalista e ter o primeiro diploma universitário na família. Foi com essa bagagem que saí de casa, na longíngua Boa Esperança do Sul, pequena cidade localizada no centro do Estado de São Paulo, na época com apenas 8 mil habitantes.
Filha de uma funcionária pública que criou sozinha dois casais de filhos, saí com o que tinha. Em casa, as coisas sempre foram contadas. Menos a vontade de ir longe. Outro dia, um amigo me perguntou por que escolhi ser jornalista. Contei que, no colégio, tive professores decisivos que me estimularam em público, lendo minhas redações em voz alta e me estimulando. A lição foi tão boa que gabaritei a redação no vestibular.
Prestei Comunicação Social na UEL, Letras na Unesp e Administração numa particular. Passei em todas. Mas escolhi Comunicação. Primeiro, porque sonhava trabalhar numa redação. Antes mesmo de prestar vestibular, pedi estágio no jornal O Imparcial, de Araraquara, cidade vizinha à Boa Esperança e na qual tenho fortes raízes fincadas, entre elas a casa da minha avó.
Lá, quando o processo de impressão ainda era em linotipo, convivi com o dia a dia de um jornal e me apaixonei. Caipira que eu era, acompanhava os repórteres nas pautas e fiquei encantada. Foi nO Imparcial, por exemplo, que tive o primeiro contato com um artista global, no caso a atriz Irene Ravache. Anos depois, um grande amigo a dirigiu e tive a oportunidade de lembrar a experiência com ela e ver o brilho nos seus olhos quando contei.
Foi através dessa e de outras experiências, que o jornalismo me fisgou. Não tive dúvidas na hora de escolher. E lá estava Londrina e o curso de Jornalismo me esperando. Cheguei numa manhã quente de março, na rodoviária antiga. A mesma que assistiu às cerimônias de chegadas e partidas da turma, cada vez que alguém chegava ou ia de férias.
Cheguei com pouca bagagem. Literalmente. Foi Londrina quem me deu régua e compasso. Aprendi o valor do conhecimento e da amizade. Convivi com pessoas espetaculares que carrego para a vida até hoje. Logo que cheguei, lembro que para aumentar o guarda-roupas , comprei três camisetas do curso. Duas delas escritas “comunicação” . As letras preenchidas formavam a frase: “com comum ação, comunicação”. Amava.
A outra era um desenho do Henfil da bandeira brasileira, só que na parte verde tinha o que restou da floresta e um homem cortando as árvores. Um clássico perfeito para os dias de hoje. Usei até gastar. E como os pares sempre se encontram, fui morar com gente igual a mim. Na república, dividíamos tudo, das roupas aos namorados. Não tudo ao mesmo tempo, é claro. E no inverno, fazíamos competição para ver quem tinha mais bolinhas nas meias. Um clássico.
Antes mesmo de terminar o curso realizei o sonho de trabalhar numa redação de jornal. E mais uma vez as descobertas foram enormes. Por exemplo, descobri que gosto de contar histórias. Mas as histórias dos outros. Aqui está sendo um exercício para mim. Tenho tantas delas guardadas, que se fechar os olhos sou capaz de sentir o cheiro e ouvir o barulho das coisas. E Londrina é uma das vozes mais fortes que ecoam em mim. Porque no dia em que eu fui embora, não sabia que só estava mudando de casa.
(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina
Foto: Reprodução de um cartum do HENFIL

