Fomos às urnas. Mas aprendemos a escolher?

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Por professor Renato Munhoz

Fomos às urnas.

Depositamos nossa escolha na urna eletrônica, cumprimos nosso dever de cidadania e, em poucos minutos, deixamos para trás uma decisão que pode produzir consequências por anos.

Mas fica uma pergunta incômoda e, talvez, justamente por isso necessária:

Será que aprendemos, de fato, a escolher?

Não estou falando de escolher este ou aquele candidato. Não é disso que trata esta coluna. Estou falando de algo anterior à escolha: a capacidade de compreender o mundo, analisar informações, reconhecer interesses, questionar discursos, identificar manipulações e construir uma opinião própria.

E aqui a conversa inevitavelmente chega à escola.

Política não é doutrinação

Durante muito tempo, construímos uma espécie de acordo silencioso: política não se discute. Religião não se discute. Futebol, às vezes, até pode.

O problema é que aquilo que não conversamos não desaparece.

A política continua entrando em nossas casas, definindo impostos, direitos, investimentos públicos, políticas sociais, educação, saúde, meio ambiente, trabalho e tantas outras dimensões da vida cotidiana. A religião continua ajudando a formar valores, visões de mundo e modos de compreender a existência.

Quando transformamos determinados assuntos em tabu, não produzimos neutralidade.

Produzimos silêncio.

E silêncio, quando falta educação crítica, pode ser ocupado por qualquer pessoa que tenha interesse em falar mais alto.

Conversar sobre política com crianças e adolescentes não significa dizer em quem eles devem votar. Aliás, deveria ser exatamente o contrário.

Significa ensiná-los a perguntar:

Quem está dizendo isso?
De onde veio essa informação?
Existe outra versão?
Qual é a fonte?
Quem ganha com essa narrativa?
Quais dados sustentam essa afirmação?
Estou concordando porque compreendi ou porque alguém despertou em mim medo, raiva ou indignação?

Isso não é doutrinação.

Isso é educação.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral reconhece a educação para a cidadania, a democracia e os direitos digitais como parte importante do enfrentamento à desinformação. Em 2024, criou o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa da Democracia, incluindo entre suas atribuições ações educativas.

E, nas Eleições 2026, a Justiça Eleitoral voltou a ampliar ferramentas de informação e checagem para ajudar cidadãos a distinguir informações verificadas de conteúdos falsos.

A mentira ganhou velocidade

Talvez uma das grandes mudanças do nosso tempo seja esta: a mentira nunca teve tanta capacidade de circular.

Uma informação falsa pode atravessar milhares de quilômetros em poucos segundos. Uma imagem pode ser retirada de seu contexto. Um vídeo pode ser manipulado. Uma fala pode ser recortada. Uma inteligência artificial pode produzir algo que parece verdadeiro.

E existe algo ainda mais poderoso: a informação falsa não precisa necessariamente convencer todo mundo.

Às vezes, basta gerar dúvida.

Quando tudo parece mentira, a verdade perde força.

Quando todos parecem ter sua própria versão dos fatos, deixamos de procurar evidências.

Quando a pessoa compartilha antes de verificar, a velocidade passa a valer mais do que a verdade.

Por isso, educação midiática deixou de ser um assunto periférico. Em 2026, iniciativas educacionais apoiadas e mapeadas pelo Governo Federal vêm trabalhando justamente leitura crítica das mídias, checagem de fatos, cidadania digital e análise das informações.

E aqui existe uma questão desconfortável

Precisamos reconhecer que nem todo mundo deseja uma sociedade mais informada.

Há interesses econômicos, políticos e sociais que podem se beneficiar de uma população que não questiona, não compara fontes, não conhece seus direitos e não compreende como as instituições funcionam.

Quanto menos informação, menor a possibilidade de questionamento.

Quanto menos questionamento, menor a resistência.

Quanto menor a resistência, mais fácil conduzir pessoas a escolher pelo medo, pela indignação, pelo preconceito ou pela promessa fácil.

Não precisamos imaginar grandes conspirações para compreender isso.

Basta observar como funciona qualquer relação de poder: informação amplia autonomia; desconhecimento aumenta dependência.

É justamente por isso que uma educação comprometida com a democracia não pode ter medo de ensinar os estudantes a pensar.

A escola não precisa ensinar o que pensar

Precisa ensinar como pensar.

Essa diferença é enorme.

Uma escola democrática não deveria entregar respostas prontas para seus estudantes. Deveria oferecer ferramentas para que eles possam construir perguntas melhores.

Pode colocar diferentes perspectivas diante da turma.

Pode apresentar dados.

Pode trabalhar notícias.

Pode discutir Constituição, direitos, deveres e funcionamento das instituições.

Pode analisar discursos políticos de diferentes épocas.

Pode ensinar como uma eleição funciona.

Pode discutir orçamento público.

Pode ensinar a identificar uma fonte confiável.

Pode comparar duas notícias sobre o mesmo acontecimento.

Pode perguntar por que uma determinada informação viralizou.

E pode, principalmente, ensinar que discordar não significa desrespeitar.

Talvez essa seja uma das aprendizagens políticas mais importantes para uma sociedade democrática.

Será que aprendemos a escolher nossos representantes, nesta eleição? Educação crítica pode ser a melhor defesa contra a desinformação e a manipulação.
Imagens geradas por IA/Magnific

A criança de hoje será o eleitor de amanhã

Quando deixamos de conversar sobre política na infância e na adolescência, não estamos protegendo nossos estudantes da política.

Estamos apenas adiando o encontro deles com ela.

E esse encontro acontecerá.

Na primeira eleição.

No grupo de WhatsApp da família.

No vídeo que aparece no celular.

Na conversa com os amigos.

No influenciador digital.

Na propaganda.

No discurso inflamado.

Na notícia verdadeira.

Na notícia falsa.

A pergunta é: eles estarão preparados para reconhecer as diferenças?

A educação não consegue impedir que uma mentira chegue até nossos jovens.

Mas pode ensinar nossos jovens a não entregarem sua consciência à primeira mentira que chegar.

Talvez essa seja uma das grandes tarefas da educação do nosso tempo

Formar pessoas que não sejam facilmente manipuláveis.

Pessoas capazes de escutar sem simplesmente acreditar.

De discordar sem odiar.

De votar sem transformar o voto em torcida.

De reconhecer seus próprios preconceitos.

De mudar de opinião quando os fatos mostram que estavam erradas.

De compreender que democracia não é a vitória permanente daquilo que pensamos.

Democracia é também aprender a conviver com aquilo que pensamos diferente.

Fomos às urnas.

Agora talvez seja hora de voltarmos para outro lugar: a sala de aula.

Porque antes de formar eleitores, precisamos formar pessoas.

E talvez a pergunta mais importante que uma escola possa fazer depois de cada eleição não seja:

“Em quem nossos alunos votariam?”

Mas:

“Eles aprenderam a pensar antes de escolher?”

Essa é uma pergunta que a educação não pode mais evitar.

Porque uma sociedade que aprende a pensar não precisa ter medo de abrir janelas.

E, às vezes, tudo o que precisamos para começar a mudar o mundo é justamente isso:

abrir uma janela que alguém passou a vida inteira nos dizendo para manter fechada.

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

Me siga no Instagram: @profrenatomunhoz

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