R$ 205 mi em déficit. E os cortes, onde serão?

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Por Telma Elorza

O prefeito freestyle Tiago Amaral anunciou, nesta semana, um número que deveria fazer os cidadãos de Londrina prestarem atenção. Ele disse que o déficit projetado para 2026 é de R$205 milhões. 205 MILHÕES.

Segundo a administração municipal, Londrina entrou em 2026 carregando R$81 milhões de déficit e sofreu, ao longo do ano, frustração de aproximadamente R$124 milhões no repasse das seguintes receitas:

  • IPVA – o grande amigo de partido e governador Ratinho Jr, numa atitude obviamente eleitoreira, reduziu a alíquota de 3,5% para 1,9% do valor venal do veículo e ferrou com a arrecadação dos municípios paranaenses;
  • Fundeb: Segundo dados do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), a Prefeitura de Londrina foi alertada pelo órgão sobre pendências e atrasos no envio de informações obrigatórias ao sistema do governo federal; o TCE-PR também apontou que a ausência e demora na regularização desses dados fiscais e contábeis, dentro do prazo legal, colocaram em xeque o acesso da cidade à modalidade VAAT (Valor Aluno Ano Total), uma verba federal complementar destinada a municípios com menos capacidade de investimento por estudante.
  • Imposto de Renda: a ampliação da faixa de isenção de do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para até R$ 5 mil gerou impacto no valor a ser recebido pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que está baseada na arrecadação do IR e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Lembrando que Londrina não gera muito IPI.

Ou seja, das três fontes, a administração freestyle perdeu uma delas por pura incompetência. Tiago Amaral também poderia ter levado um lero com o governador sobre os resultados que a redução do IPVA faria a todos os municípios. Mas, claro, garantir a sucessão no governo parece ser mais importante. “Ah, mas os contribuintes pagaram menos e isso é bom”. Sim, mas a conta virá exatamente para todos nós, donos ou não de um veículo automotor.

O prefeito diz que está adotando medidas de contenção para tentar fechar as contas. Tudo bem. Apertar o cinto faz parte. O problema é saber onde esse cinto será sendo apertado e onde continuará folgado.

Porque, enquanto a prefeitura anuncia cortes de contratos, controle de horas extras (e a Educação de Londrina está funcionando à base de horas extras, porque faltam professores há tempos), redução de imóveis alugados, revisão de despesas e mudanças no transporte coletivo, fica a pergunta: o que é essencial e o que pode esperar?

O anúncio oficial do déficit de R$ 205 milhões  para 2026 e de corte de gastos na Prefeitura de Londrina levanta algumas questões, mas a principal é: onde será cortado?
Foto: Secretaria Municipal de Educação

Um exemplo está na própria máquina pública: o programa Londrina ON custa R$300 mil por mês à Companhia de Tecnologia e Desenvolvimento (CTD). Em 12 meses, são R$3,6 milhões. Uma ferramenta que seria legal e ajudaria a resolver vários problemas da cidade. Mas há muitas reclamações públicas entre os usuários, sobre instabilidades, demora nas respostas e dificuldades para registrar solicitações. A TV Tarobá mostrou até um de pedido sobre buraco de rua que, no aplicativo, foi considerado concluído sem que  problema tivesse sido resolvido. É claro que transformação digital é cara e a prefeitura precisa modernizar seus serviços. Mas R$3,6 milhões ano é dinheiro público que precisa apresentar resultado e, nesse momento, será que é necessário?

E o transporte coletivo? O subsídio municipal ao sistema, que era de R$37 milhões em 2022, chegou a R$175 milhões em 2025 e está projetado em aproximadamente R$177 milhões em 2026. A CMTU agora trabalha com a possibilidade de reduzir esse valora para R$50 milhões em 2027. E de onde sairá os R$127 milhões a menos no sistema?

A CMTU afirma que pretende conseguir isso reduzindo a quilometragem dos ônibus, principalmente em horários e linhas de baixa demanda e também aos domingo e feriados. Ou seja, os pobres mais uma vez serão privados até do direito do lazer porque são eles que usam o transporte público aos domingos e feriados. Vão ter que esperar mais (e olha que a reclamação sobre a demora já é grande). Segundo a CMTU, a tarifa – em R$6,25  – não teria reajuste este ano. Mas será mesmo? Afinal, são R$127 milhões a menos. As concessionárias de transporte público vão aceitar?

Orçamento para 2027 e o déficit de 2026

Enquanto tudo isso acontece, a Prefeitura apresenta um orçamento para 2027 de cerca de R$ 4 bilhões (R$3,986 bi) com previsão de superávit primário de R$2,745 milhões.  Mas esse orçamente não significa que esse dinheiro esteja disponível no caixa (ainda mais se não cumprirem as exigências dos órgãos que fazem os repasses, como fizeram com o Fundeb).

Quanto dos R$205 milhões do déficit atual vai terminar em restos a pagar? Porque uma coisa é terminar 2026 com um buraco e resolvê-lo (aos trancos e barrancos) e outra é começar o novo ano fiscal pagando a conta anterior.

E não dá para esquecer dos servidores. O prefeito freestyle garante que salários e 13º. são prioridade. Masssssss……Sabe Deus, né?

Só que servidor não pode ser uma variável. Um planejamento bem feito nem deveria cogitar dificuldades de pagamento de salários. Mas planejamento é algo que passa longe dessa administração, que já usou dinheiro do Fundo Municipal do Meio Ambiente para cobrir despesas de custeio da Secretaria de Educação.

Tenho medo de onde o prefeito vai cortar. Sinceramente. Me disseram que já começou a cortar pelo Promic, destinado a produtores culturais  pessoas físicas, mas ainda não tive confirmação. Se cortar as horas extras dos professores, vai faltar professor para dar aulas aos nossos filhos. Se cortar da Saúde, as esperas nas UPAS vão aumentar (e os veículos de comunicação da cidade já cansaram de noticiar esperas de mais de 8 horas para atendimento, em momento sem cortes). Na pavimentação? Nas Bibliotecas Públicas? Meu Deus, na Assistência Social, numa cidade que odeia pobres?

Enfim, a perda de repasses do Fundeb por ERRO da prefeitura me deixa cada vez mais certa em afirmar que essa administração não sabe o que está fazendo. Vamos observar os cortes (salários dos secretários não pensaram em reduzir, né?) que serão feitos.

Foto principal: Emerson Dias/N.COM

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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