Por Telma Elorza
“Estou casada há cinco anos e tenho um casal de gêmeos, de 2 anos e meio. E, para ser sincera, não aguento mais meu casamento. Trabalho fora o mesmo tanto que meu marido, mas as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos acabam ficando só nas minhas costas. Meu marido só ajuda quando eu peço explicitamente para fazer alguma tarefa. Dividimos todas as contas, mas estou sobrecarregada. Às vezes penso em me separar, porque já faço tudo sozinha mesmo. Pelo menos, não terei ainda que ficar dando satisfação de cada centavo a mais que gasto. Sempre tem briga quando quero ir ao salão, fazer unhas ou cabelo, que são os únicos cuidados que consigo ter comigo mesma e ainda muito de vez em quando. Estou exagerando ao pensar em divórcio por causa disso?”
Amiga, vou ser bem direta: você não está pensando em divórcio por querer fazer “unha e cabelo”. Se fosse só isso, eu mandaria você procurar um terapeuta. O seu problema é muito maior. Você está simplesmente exausta por ser uma trabalhadora, empregada doméstica, mãe, dona de casa e esposa. E, com certeza, embora você não tenha citado, a administradora financeira de toda a casa, planejadora de cardápios, encarregada de supermercado, de levar as crianças ao pediatra e – se tiver – à creche.
Enquanto isso, o seu marido está ocupando o confortável cargo de “homem que ajuda quando solicitado”.
E esse é o primeiro absurdo nessa relação. Marido não deveria “ajudar” em casa. Deveria ser responsável por assumir pelo menos 50% de todas essas funções que você desempenha sozinha. Ou, ao menos, ser o provedor total da casa, com dinheiro suficiente inclusive para bancar seus cuidados pessoais.
Veja que não é nada justo o que você listou – e eu complementei. Vocês dois trabalham fora na mesma proporção, dividem as contas (imagino que de forma igualitária também). Então por que você é responsável, sozinha, por todo o restante? Por que alguém decidiu que você a gerente da família e jogou tudo no seu colo?
Porque você deixou, no começo da relação.
Sim, eu sei. Nós, mulheres, fomos criadas para dar conta de tudo. Fomos ensinadas, desde cedo – com as brincadeiras de “casinha”, onde lavávamos, passávamos, limpávamos a casa, cozinhávamos, cuidávamos de nossos “bebês” e servíamos nossos “maridos” – que isso era a função da mulher. Mesmo que nós tenhamos conquistado nosso espaço do mercado de trabalho, continuamos a ser ensinadas que tudo isso era “trabalho de mulher” enquanto o homem deveria ser o “provedor”, exatamente como era há mais de 50 anos. Detalhe: poucos homens, hoje em dia, conseguem ser o único provedor de uma casa.
E dinheiro é uma coisa importante, no relacionamento. Para mim, levantaram várias RED FLAGs quando disse que brigam quando você quer fazer unhas ou cuidar dos cabelos. Se vocês dividem as despesas e as contas estão pagas, por que você precisaria ter que dar satisfação do seu dinheiro para um uso pessoal? Cuidado pessoal não é crime contra o orçamento doméstico. Depois de fazer tudo sozinha, você merece um tempo para si mesma.
E o pior. É muito comum a gente ouvir homem reclamando que, depois dos filhos, a mulher “se largou, engordou, não se arruma mais para ele”. Que não faz academia, não cuida da pele, não arruma o cabelo, um “está sempre de coque e moleton” e não tem mais disposição para fazer sexo.
Pois é. Mas quem está cuidando da casa e dos filhos enquanto ela faz a academia? Quem paga a empregada doméstica, a cozinheira, a academia, os tratamentos de pele (que são caríssimos), até aquela plástica para tirar a barriguinha que ficou depois da gravidez, dar uma levantada nos seios caídos da amamentação? Porque é muito fácil reclamar que a mulher deixou de ser aquela “gostosa” que era antes dos filhos, mas sentar no próprio rabo para esconder que é um homem disfuncional que nem consegue “prover” tudo o que precisa e importa. Não existe um skin care milagroso contra a exaustão. Não existe academia que possa entrar facilmente numa rotina em que você não consegue nem tomar um banho em paz.
A responsabilidade precisa ser compartilhada com o marido
Antes de pensar em divórcio, talvez seja hora de você se impor e não aceitar mais ser a responsável por tudo, sozinha. Com os filhos, com a administração da casa e das tarefas domésticas. A responsabilidade precisa compartilhada.
E para ele perceber isso, talvez seja interessante fazer uma experiência, uma espécie de teste. Primeiro, eu pararia de pedir. Depois, eu pararia de fazer tudo aquilo que me sobrecarrega, com exceção, claro, do cuidado com os bebês e suas coisinhas. Não lavaria a louça do casal, nem as roupas do marido. Me concentraria só nas crianças. Almoço e janta do marido? Não.
E na hora que ele reclamar, sente e converse seriamente. Não é “me ajuda com as crianças”, é “as crianças são nossas; esta casa é nossa, a responsabilidade é de nós dois, porra!” (claro, não precisa xingar como eu, kkk). Vocês devem definir sobre o que ele pode ficar responsável sem esperar que você peça. Lavar louça, as roupas, lavar o banheiro, fazer a comida e até dar banho nas crianças, cuidar delas enquanto você faz sua parte, o que for melhor para os dois (mas, principalmente, para você). Você precisa deixar claro que precisa voltar a ter uma vida que não seja apenas trabalho + casa + filhos + marido.
E isso também vale para o dinheiro. Você também trabalha, recebe seu pagamento. É muito justo que gaste uma parte com você. Aposto que para a cervejinha dele com os amigos não falta, né?
Diga que quer sair com as amigas, fazer a unha, comprar uma roupa, fazer exercícios, tomar um café sozinha e deixar as crianças com ele. Lembre-o que você é uma mulher, não só mãe e esposa.
E, se depois dessa conversa, ele continuar tentando tirar o corpo fora das responsabilidades que ele deveria ter como pai e marido e continuar reclamando do seu salão, peça o divórcio. Porque esse homem não quer uma parceira de vida. Ele quer uma empregada doméstica que facilite sua vida e ainda pague metade das contas.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Quem é a Tia Telma
Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.
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