Frequento festa literária como autora, produtora cultural e curadora. Dentro de mim, três mulheres assistem à mesma cena. E chegam, sempre, à mesma conclusão incômoda
Por Edra Moraes
Existe uma cena que se repete. Não importa o tamanho do evento. Não importa a cidade ou orçamento, esta cena é a fila que só acontece para esperar o grande nome. E com a fila, vem também, o celular em riste, pedindo self. Uma espécie de comoção coletiva.
Ali do lado, no corredor, sem fila nenhuma, estão os livros. Livros de pequena editora. Livros de autor independente. Livros que talvez sejam melhores do que o do palco principal.
Eu não sei se isso tem um nome, mas eu chamo de espetacularização do autor. Mas isto não é uma crítica a autores famosos no palco. É mais profundo.
Estamos falando de quando o nome de uma pessoa vale mais do que o livro e quando a foto vale mais do que a leitura. Falamos de quando o escritor vira atração e o livro vira acessório.

Três mulheres, uma cena, a mesma pergunta
Eu não assisto essa cena de um lugar só. Assisto de três.
A produtora cultural e curadora em mim organiza mesa, monta cronograma, decide luz e horário. Sabe que se pode fabricar um nome. Sabe o preço de um bom cachê. E sabe, melhor do que ninguém, que curadoria nunca é neutra, porque quem escolhe quem sobe ao palco está escolhendo, também, quem vai ser visto. E quem é visto tem mais chance de ser lido.
A escritora sem sucesso midiático em mim já se sentou na mesa das quatro da tarde e olhou alguns amigos, e curiosos, numa sala com mais cadeiras que presenças. Já viu plateia inteira passar reto pelo seu livro. Sabe exatamente o que é ser o corredor.
A ex-publicitária em mim passou a vida inteira fazendo conta: patrocínio, alcance, retorno sobre investimento. Reconhece economia da atenção de longe. Sabe que fila vende. Sabe que fama gera fama, e que esse círculo não tem freio natural. Três vozes da minha cabeça e então eu fui pesquisar sobre o assunto. A quem mais incomoda a cena?
Curadoria não é lista de convidados. É poder.
Um estudo publicado em maio de 2026 na revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea analisa o crescimento das festas e festivais literários no Brasil e o papel que a curadoria passou a exercer nesse cenário. A conclusão é direta: curadoria não apenas organiza programação, mas também interfere na recepção da literatura contemporânea e na formação de leitores.
Traduzo: escolher quem sobe ao palco é escolher quem será visto. E quem será visto tem mais chance de ser lido. Isso muda tudo.
Um evento literário não é mesa, palestra e lançamento. É máquina de produção de visibilidade. E visibilidade, hoje, é poder.
A produtora fala: eu sei fabricar a fila
Escuto, aqui, a voz que organiza evento há décadas. Ela diz: um nome conhecido garante público. Público garante repercussão. Repercussão interessa a patrocinador. Patrocínio sustenta o evento. A lógica fecha, e fecha bonito. É por isso que ela se repete, evento após evento, curador após curador.
Mas ela diz também outra coisa, mais incômoda: fila não é indicador de leitura. Fila é indicador de fama. Confundir as duas coisas é o primeiro erro de quem organiza cultura pensando em planilha e não em livro.
A escritora do corredor fala: eu sou o dado que ninguém coleta
Escuto, aqui, a voz que diz: não fui parar no corredor por acaso. Fui parar lá porque não tinha prêmio, não tinha editora grande, não tinha capital simbólico suficiente para virar atração. Escrevi com o mesmo rigor. Revisei com o mesmo cuidado. Não teve fila.
E o pior: nem estatística eu viro. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostra que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Hoje, 53% da população não lê nem parte de um livro. Entre quem lê, o tema da obra pesa mais na escolha do que qualquer outro fator, seguido de capa e indicação de terceiros. O nome do autor, sozinho, decide menos do que a curadoria gostaria de admitir.
Ou seja: o leitor até existe. Ele só não está chegando até o corredor. Porque ninguém o leva até lá.

A publicitária fala: isso tem nome técnico, e o nome é funil de atenção
Escuto, por fim, a voz que aprendeu a vender para sobreviver de cultura ou entretenimento.
Ela diz sem rodeios: vocês estão descrevendo um funil de conversão. Topo, o nome famoso, que atrai. Meio, o evento, que retém. Fundo, a venda, só que a venda não está acontecendo no corredor. Está acontecendo na mesa principal, com quem já vendia antes de chegar. Festivais que só ampliam quem já é grande, é o que temos por enquanto.
O livro devia ser a estrela
O palco cheio. A plateia lotada. O autor famoso fala. As câmeras registram. As redes repercutem. E, a poucos metros, um livro espera. Sem fila. Sem fotógrafo. Sem prêmio. Sem ninguém dizendo que ele é indispensável.
As três mulheres que sou concordam nisso, ao menos: a fama pode abrir a porta. O problema é quando ela vira a casa inteira.
Curadoria que só reproduz o que já é conhecido não revela nada. Só confirma o que a economia da atenção já tinha decidido antes do festival. O desafio não é ter autor famoso na mesa. É garantir que, depois da mesa, o público ainda vá até o corredor.
Porque quem devia reinar, no fim das luzes, é o livro.
Você já saiu de um festival literário com um livro de autor desconhecido debaixo do braço? Ou também voltou só com foto? Conta nos comentários — essa conversa também precisa do corredor.
Colunista de O Londrinense, escreve há mais de 15 anos sobre economia criativa, política cultural e trabalho no setor. Também é autora, produtora cultural, curadora e ex-profissional de marketing e publicidade — as três vozes deste texto.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes e @londrinacriativamovimento, YouTube @edra-moraes27 Contatos: e-mail edra.moraes27@gmail.com e fone/whatsapp: (41) 997722447.
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Respostas de 6
Eu sou autora independente e sei bem do que você está falando. Em alguns locais, o público está tão deslumbrado com o famoso, que não quer nem ouvir do que se trata o nosso livro. Não aceitam marca páginas e nem tentam descobrir novidades.
Tive uma grata surpresa na Bienal do livro da Bahia, onde vendi mais de duas dezenas de exemplares de meus livros e os apresentei a centenas de leitores interessados, respeitosos e dispostos a despender 5 minutos de seu tempo.
Eu sempre compro obras de ilustres desconhecidos, mesmo antes de publicar o meu primeiro livro. Inclusive, minha tese de doutorado é sobre intelectuais negras e/ou nordestinas, incluindo autoras pouco famosas.
Só lamento que muitas escritoras e escritores fantásticos vão permanecer no anonimato, porque as pessoas não querem arriscar e preferem seguir a tendência do momento, sem generalizar.
Sei bem o que sentimos. E muito o obrigada pelo feedback. Eu faço muitos eventos muito mais na esperança do que na expectativa de venda.
Muito interessante e importante essa matéria!!! Sou leitora e sim, já saí de um evento literário com livros de autores desconhecidos debaixo do braço. E também sou ilustradora de livros (mais para o público infanto-juvenil mas não só) mesmo que seja uma tarefa árdua porque trabalho com técnicas manuais que levam tempo. Enfim, ainda acredito no livro e que sua qualidade literária não poderia, ou não deveria, ser substituída pela fama a uma pessoa.
Sim… seguimos acreditando. Obrigada pelo feedback
Edra, matéria importante por trazer esses três pontos, sobretudo porque você viveu as situaçōes. Com o Coletivo Marianas tivemos uma experiência interessante na FLAP. Um grande público, autores famosos, nós no corredor e foi nossa maior venda!
Apoio autores desconhecidos.
Sim. Alguns eventos têm esta característica. O que mata são eventos ficados em turismo que atraem um público que vai para ser visto. Este tipo de evento consome uma grana e faz muito pouco pela cadeia do livro. O perfil do público é muito importante.