Por Telma Elorza
“Estava casada há seis anos até que meu ex, que parecia perfeito em casa, foi flagrado fazendo sexo com uma moradora de rua viciada. Depois, ele me confessou que é um tipo um fetiche que tem, que fazia sexo frequentemente com moradoras de rua e que precisa de tratamento, me pedindo uma chance e apoio. Mas não consegui, separei. Como é possível alguém ter um fetiche assim? Você pode me explicar?”
Amiga, que situação. Eu imagino o tamanho do choque que você levou. Se a traição com pessoas ditas “normais”, inseridas na sociedade, já é devastador num casamento, imagina com mulheres vulneráveis ao extremo, como são as moradoras de rua, dependentes químicas. Deixa qualquer um tentando entender o que acontece na cabeça de um homem assim. Afinal, como alguém aparentemente “normal” e amoroso pode fazer uma coisa dessas?
Mas, infelizmente, é uma coisa mais comum do que você pensa. Quem trabalha na área de saúde mental e assistência social dos municípios pode confirmar o que estou falando. A população de rua é extremamente vulnerável e as mulheres, nessa situação, ainda mais.
Muitas vezes, elas trocam sexo por dinheiro, comida, drogas. Isso significa que a capacidade de consentir livremente pode estar profundamente comprometida. Praticamente um estupro de vulnerável. Que não chegam às estatísticas porque essas mulheres nem se dão conta que estão sendo abusadas. E a maioria da sociedade vira a cara para elas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que as populações em situação de rua enfrentam taxas muito maiores de violências físicas e sexuais, justamente porque estão em uma enorme fragilidade social.
Aproveitar-se dessa vulnerabilidade – como seu ex, um cara normal, padrão e facilmente aceito como pessoa de bem – levanta questões éticas sérias, independentemente da relação parecer consentida.
É por isso que muitos especialistas afirmam que, em situações assim, a discussão deixa de ser apenas sobre sexo e passa também pela exploração de uma pessoa vulnerável.
Mas por que um homem “de bem” faria sexo com uma mulher em extrema vulnerabilidade?
Então, não há uma única resposta.
Alguns pesquisadores apontam que algumas pessoas (sim, mulheres também) sentem excitação quando exercem poder sobre alguém. Procurariam situações em que acreditam ter controle absoluto, sem cobrança emocional ou afetiva, para fazer o que quisessem – inclusive violência física – , em troca de algum dinheiro ou uma porção de drogas. Mas, de acordo com alguns pesquisadores, há também quem desenvolva padrões compulsivos de comportamento sexual, buscando experiências cada vez mais “diferentes”.
Como seu ex, existe também a possibilidade de alguns usarem a palavra “fetiche” para explicar um comportamento que nem eles mesmos entendem completamente. Dizer que é “fetiche” pode parecer mais simples do que admitir uma compulsão sexual, uma dificuldade emocional profunda ou até a incapacidade de lidar com os próprios impulsos. Incrível é que essa frase pode ser usada também para definir alguns seriais killers. Não todos, mas alguns.
Seu ex pode precisar de tratamento? Pode ser. Mas é preciso deixar claro que nem todo comportamento sexual incomum é um transtorno e precisa de tratamento.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), da Associação Americana de Psiquiatria (que o principal guia de critérios clínicos usado internacionalmente, em conjunto com a CID – Classificação Internacional de Doenças, da OMS), traz uma distinção entre interesse sexual atípico – conhecido como parafilia – e um transtorno parafílico. O transtorno só existe quando esse interesse provoca sofrimento significativo para própria pessoa ou leva à exploração ou prejuízo de outras. Simplificando: sentir excitação por algo incomum não transforma alguém em doente.
No caso do seu ex, pelo que você resumiu, não dá para dizer se ele tem um fetiche específico ou um transtorno. Isso só um psiquiatra pode avaliar. E seria melhor procurar até um especializado em sexualidade.
Se ele percebeu que perdeu o controle sobre seu comportamento sexual, sentiu vergonha e, mesmo assim, repetiu atitudes que colocaram sua vida afetiva e social em risco, realmente pode estar precisando de ajuda especializada urgente. Hoje, já se sabe mais e existem tratamentos que podem ajudar em comportamentos sexuais compulsivos e outras dificuldades relacionadas a sexo.
Não se culpe
Quanto a você, não se culpe. Não acredite que você falhou, que não foi suficiente, que não sabia fazer sexo gostoso. E muito menos que deveria dar outra chance.
Você não é responsável pela compulsão sexual de ninguém. E acredito que dificilmente conseguiria viver com alguém que se aproveita da vulnerabilidade extrema. A confiança quebrada e – pior – o desapontamento com o ser humano que seu marido se mostrou dificilmente serão reconstruídos. Então, na minha opinião, você fez muito bem em se separar.
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Quem é Tia Telma?
Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
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