Por Telma Elorza
“Depois de velho, meu marido ficou safado. Ultimamente, ele anda me pedindo para fazer umas coisas que me surpreendem sempre. Eu tenho até vergonha de falar, mas nossa vida sexual melhorou muito e tenho gozado como nunca antes. Mas, ao mesmo tempo, me sinto culpada. Como eu, uma mulher de 68 anos, mãe e avó, religiosa, posso ser tão pervertida como nunca fui na juventude? Será que estou errada por aproveitar o momento?”
Minha querida, já adianto sem delongas. Joga a culpa no lixo e vá ser feliz. E digo o porquê.
Aos 68 anos (na verdade, a partir dos 50), a sociedade espera que a mulher tenha sido promovida a uma espécie de santa, que só deve ter interesse em bingo, crochê e netos. Que só quer fazer bolo de fubá, cuidar das plantas e vai dormir às nove da noite. Sexo? Só se for para agradar o marido e reclamar da coluna depois.
Aliás, fico muito puta ao ver como a sociedade resolveu que o prazo de validade do desejo feminino vence junto com a menopausa. Como se, depois dos 50, o corpo recebesse um comunicado oficial, algo do tipo “Prezada senhora, informamos que sua carteira funcional de mulher com tesão foi cancelada e, portanto, a senhora só está autorizada a reclamar da vida, do marido, dos filhos e dos netos. Nada mais de sexo e orgasmos. Passar bem”.
Ah, se fuder.
Portanto, digo com toda sinceridade, você não ficou pervertida. Você simplesmente descobriu, um pouco mais tarde, os verdadeiros prazeres do sexo. E isso liberta. Ser livre e ser pervertida são duas coisas muito diferentes.
Outra coisa. Seu marido não ficou safado porque envelheceu. Talvez ele tenha ficado mais confortável consigo mesmo e resolveu trazer à tonas todas as fantasias e fetiches que escondeu pela vida inteira. Talvez tenha percebido agora que a vida é curta e se permitiu aproveitar o sexo como se deve, antes de ser tarde demais. Ou, talvez, vocês tenham finalmente descoberto que aquilo que muitos casais passam década juntos sem descobrir: a verdadeira intimidade conjugal. Aquela, onde um pode ser totalmente sincero com o outro, sem medo de julgamentos e com o máximo de acolhimento. Ele se abriu, você acolheu e ambos agora desfrutam juntos de um sexo de qualidade. Ponto.
Você escreveu que tem vergonha até de contar o que fazem entre quatro paredes. Ótimo! Continue não contando. Algumas coisas foram feitas para serem vividas, não publicada no grupo de whatsapp dos amigos e muito menos no da família. Mas, com certeza, a família percebeu que o casal anda mais felizinho, né?
Mas, o que me chamou a atenção no seu e-mail foi a frase “tenho gozado como nunca antes”. Querida, permita-me fazer uma pequena homenagem a essa frase. Sabe quantas mulheres da nossa geração têm coragem de dizer isso em voz alta até para si mesmas? Quantas passaram a vida inteira achando que sexo era só aquilo mesmo que tinham no quarto e se conformavam em jamais ter um orgasmo na vida? E que, pior, achavam que a culpa era sua? Pois é. Não há dados oficiais, mas as estimativas das pesquisas já realizadas mostram de 60 a 70% das mulheres casadas acima dos 45 nunca tiveram prazer no casamento.
A culpa foi gravada a ferro na mente das mulheres
Nós fomos educadas para servir, cuidar, obedecer e rezar. Poucas, pouquíssimas foram ensinadas que tínhamos o direito de sentir prazer com o sexo. Aliás, em buscá-lo também. Muitas, da nossa geração e até mais novas, não sabem o que é se masturbar. Não se tocam, não descobrem o próprio corpo.
Há uma crueldade incrível com a educação sexual feminina, até hoje propagada. O homem pode ser safado o quanto quiser, é até esperado que seja “comedor”. Mas a mulher continua sendo ensinada a ser comportada, quieta, meiga, delicada e sem tesão. Se gosta demais de sexo, alguma coisa está errada.
O resultado é esse, carregamos uma culpa enorme por sentirmos prazer. Gostar de fazer sexo com o próprio marido está muito, muito longe de ser perversão. Eu chamo de sorte rara. kkkk
Aliás, ninguém pergunta a seu marido se ele se sente culpado por continuar desejando a esposa. Quando um homem dessa idade diz que sua vida sexual está maravilhosa, recebe tapinhas nas costas e é chamado de garanhão. Mesmo que tenha sido sob efeito da pílula azulzinha. Mas a mulher? Não, com ela surge culpa, vergonha e dúvida sobre sua moralidade.
Então, minha amiga, aposente essa culpa já.
A ciência já mostrou inúmeras vezes que uma vida sexual satisfatória traz qualidade de vida, faz bem à pele, à saúde física e mental, bem-estar e até mais conexão emocional entre o casal, principalmente na maturidade. Sexo bom e saudável não tem prazo de validade.
Para encerrar, faça-me um favor. Na próxima vez que a culpa aparecer, mande-a tricotar uma toalhinha de crochê enquanto você vai ser feliz, ok? Combinado?
Espero ter ajudado.
Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Quem é Tia Telma?
Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
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Uma resposta
Nada mais a acrescentar… só um: vai ser feliz sem culpa!
Se o que estão fazendo é de comum acordo… relaxa e goza (mais) rsrs
Adimiro vocês, parabéns!