Uma escola desencontrada

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Por professor Renato Munhoz

Há uma pergunta que deveria inquietar pais, professores, estudantes e gestores: a escola ainda é um lugar de encontro?

Durante muito tempo, acreditamos que sim. A escola era o espaço onde as pessoas se encontravam com o conhecimento, com os amigos, com os professores, com as diferenças e, sobretudo, consigo mesmas. Era o lugar da descoberta, da convivência e da construção de projetos de vida.

Mas basta caminhar pelos corredores de muitas escolas para perceber que alguma coisa se perdeu pelo caminho.

Vivemos um tempo curioso. Nunca tivemos tantos recursos tecnológicos, tantas metodologias, tantos cursos de formação e tantos discursos sobre inovação. Ainda assim, cresce a sensação de que a escola vive um profundo desencontro.

Ela parece não conseguir encontrar os estudantes. Os estudantes, por sua vez, têm dificuldade de encontrar sentido naquilo que vivem diariamente entre quatro paredes. Os professores, consumidos por uma avalanche de burocracias, formulários, plataformas, relatórios e cobranças, muitas vezes já não encontram tempo nem energia para aquilo que os fez escolher a profissão: ensinar.

Em muitos lugares, o ensino corre o risco de se transformar em uma sequência de tarefas cumpridas quase automaticamente. Cumpre-se o currículo. Cumpre-se o calendário. Cumpre-se a carga horária. Cumpre-se a plataforma. Cumpre-se a avaliação.

Mas nem sempre se cumpre aquilo que realmente importa: formar seres humanos.

Existe uma diferença enorme entre uma escola funcionando e uma escola viva.

Uma escola pode ter salas cheias, computadores modernos, paredes pintadas, índices positivos e, ainda assim, estar profundamente desencontrada de sua própria missão.

Talvez porque, aos poucos, fomos permitindo que a urgência ocupasse o lugar do essencial.

A educação passou a medir resultados com facilidade, mas encontra enorme dificuldade para medir encantamento, pertencimento, curiosidade e esperança. E justamente esses elementos são os que transformam uma escola em um verdadeiro espaço educativo.

O estudante de hoje não rejeita aprender. Ele rejeita, muitas vezes, uma aprendizagem que não dialoga com sua realidade, que não desperta perguntas e que insiste em oferecer respostas para questões que ninguém fez.

Da mesma forma, o professor não perdeu sua vocação. O que muitos perderam foi o tempo de respirar, criar, pesquisar e construir relações significativas. A burocracia, que deveria servir à educação, frequentemente tornou-se sua senhora.

Talvez o maior desafio da educação contemporânea não seja ensinar inteligência artificial, programação ou novas competências. Antes disso, será preciso recuperar aquilo que sempre fez da escola um lugar único: a capacidade de produzir encontros.

Encontro entre gerações.

Encontro entre ciência e humanidade.

Encontro entre conhecimento e sensibilidade.

Encontro entre o estudante e o sentido de aprender.

Encontro entre o professor e a alegria de ensinar.

Isso exige coragem.

Uma escola pode ter salas cheias, computadores modernos, índices positivos e, ainda assim, estar profundamente desconectada da sua própria missão
Fotos: Magnific

Coragem para admitir que alguns modelos já não respondem às necessidades do presente. Coragem para abandonar práticas que sobrevivem apenas porque “sempre foi assim”. Coragem para olhar para dentro da própria escola sem medo de reconhecer suas sombras.

Toda instituição precisa, de tempos em tempos, revisitar sua identidade. Perguntar por que existe. Perguntar quem deseja formar. Perguntar quais marcas deseja deixar na sociedade.

Com a escola não deveria ser diferente.

Encontrar-se consigo mesma talvez seja o maior projeto pedagógico do nosso tempo.

Porque uma escola que conhece sua missão inspira. Uma escola que inspira transforma. E uma escola que transforma não muda apenas o destino de seus estudantes; ajuda a reconstruir a própria sociedade.

A educação nunca precisou apenas de reformas curriculares. Ela sempre precisou, acima de tudo, de sentido.

E talvez esteja justamente aí o primeiro passo: permitir que a escola volte a se encontrar. Não apenas com seus alunos, nem somente com seus professores, mas com a razão mais profunda de sua existência.

Porque quando uma escola se reencontra consigo mesma, ela volta a ser aquilo que sempre deveria ter sido: um lugar onde o futuro começa a acontecer.

Mas deixa de existir como lugar.

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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