Por Marcelo Minka
Em tempos de franquias, super-heróis e continuações industriais, há algo quase obstinado em O Convite: um filme que aposta em quatro atores, um apartamento, um jantar e tudo aquilo que casais costumam deixar para depois.
Dirigido por Olivia Wilde — que também interpreta Angela —, O Convite reúne Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton em torno de uma premissa aparentemente simples. Joe e Angela vivem um casamento submetido à rotina, às pequenas frustrações e a uma espécie de silêncio acumulado. Quando convidam os vizinhos do andar de cima, Pina e Hawk, para beber, o encontro rapidamente deixa de ser cordial. O que entra em cena não é apenas sexo, mas ressentimento, insegurança, fantasia, medo de envelhecer e a suspeita de que outra vida é possível.
Wilde, conhecida como diretora por Fora de Série, dirige aqui uma comédia de câmara: quase tudo acontece entre paredes, copos, olhares e frases que, a cada minuto, parecem mais perigosas. O roteiro de Rashida Jones e Will McCormack adapta a peça e o filme espanhol Sentimental, de Cesc Gay. Essa origem teatral aparece na concentração espacial e no gosto pelo diálogo como campo de batalha, mas o filme evita parecer apenas uma peça filmada. A câmera se aproxima dos rostos, sustenta os silêncios e transforma o apartamento num território emocional em disputa.
Há, sim, uma lembrança clara de Woody Allen, não como cópia, mas como parentesco. Filmes como Hannah e Suas Irmãs e Maridos e Esposas também observavam casais aparentemente civilizados descobrindo, em jantares e conversas domésticas, que a vida amorosa é feita de desejos, rivalidades e verdades que ninguém quer ouvir. Em O Convite, porém, a neurose verbal típica de Allen dá lugar a algo mais contemporâneo, pessoas que não sabem exatamente o que desejam, mas suspeitam que a forma antiga de viver já não basta.
A força de O Convite
É nesse ponto que O Convite encontra sua força. O problema de Joe e Angela não é apenas a falta de sexo, nem a presença provocadora dos vizinhos, e sim a dificuldade de admitir que uma relação longa pode sobreviver e, ao mesmo tempo, ter deixado de responder àquilo que as pessoas imaginavam para si mesmas. O casal não está diante de uma grande tragédia romântica, está diante de algo mais comum e mais incômodo, a inércia.

Seth Rogen faz Joe com uma irritação defensiva, como quem transforma frustração em sarcasmo antes que ela vire tristeza. Olivia Wilde dá a Angela uma inquietação menos ruidosa, mas igualmente corrosiva. Penélope Cruz e Edward Norton surgem como o espelho oposto, mais livres, mais seguros, mais sedutores, e é essa ambiguidade que impede o filme de cair na fantasia simplória de que basta romper regras para encontrar felicidade.
Tecnicamente, Wilde trabalha bem com a restrição, o espaço fechado não é uma limitação, mas a forma do filme, quanto menor o apartamento, maior parece ser a distância entre as pessoas. A encenação sabe alternar o humor constrangedor e o desconforto íntimo, sem transformar seus personagens em caricaturas puramente cômicas em momentos em que o roteiro exagera um pouco a função provocadora dos vizinhos. Mas a força do elenco segura o filme quando a situação ameaça virar apenas uma comédia sobre adultos sexualmente reprimidos.
A grande questão de O Convite não é se os personagens deveriam se separar, abrir o relacionamento ou permanecer como estão, e sim o quanto de nossa vida afetiva continua sendo escolha e quanto virou hábito? O filme fala menos sobre sexo do que sobre imaginação, sobre imaginar que ainda é possível desejar diferente, conversar diferente, viver diferente, sem que isso precise significar destruir tudo.
Em um cinema cada vez mais ocupado por capas esvoaçantes, O Convite lembra que ainda há bons dramas. Ver adultos conversando mal, desejando mal e tentando, entre uma taça e outra, descobrir o que fazer com a própria vida, é tão prazeroso quanto se olhar no espelho.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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