Purple drink: bebida viral entre adolescentes é nova estratégia do mercado de drogas

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Por Alessandra Diehl

Relatório Mundial sobre Drogas 2026 mostra que mercados ilícitos estão deixando de vender apenas drogas isoladas para comercializar “produtos” e misturas cada vez mais imprevisíveis, impulsionadas pelas redes sociais

O crescimento da popularidade do chamado purple drink entre adolescentes e jovens nas redes sociais pode representar muito mais do que uma nova tendência da internet. Para especialistas, ele é um exemplo da profunda transformação descrita pelo Relatório Mundial sobre Drogas 2026, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que aponta uma mudança importante na forma como os mercados ilícitos vêm atuando em todo o mundo.

Mais do que produzir novas drogas, organizações criminosas passaram a desenvolver produtos com identidade própria, nomes atrativos, diferentes formas de consumo e composições variáveis. Essa estratégia inclui misturas como o chamado tucibi (pink cocaine), o happy water, produtos para cigarros eletrônicos e bebidas como o purple drink, que se tornam facilmente compartilháveis nas redes sociais e despertam curiosidade principalmente entre adolescentes.

Originário dos Estados Unidos, o purple drink, também conhecido como lean ou sizzurp, surgiu a partir da mistura de xaropes contendo codeína com refrigerantes, balas ou doces. Em algumas situações, outras substâncias também são adicionadas à bebida, como álcool, anti-histamínicos ou benzodiazepínicos, aumentando significativamente o risco de intoxicação grave, depressão respiratória e overdose.

Embora o Brasil ainda não apresente uma elevada prevalência de consumo dessa bebida, sua presença vem sendo observada cada vez mais em músicas, vídeos e conteúdos publicados nas redes sociais, despertando preocupação entre especialistas em saúde mental, dependência química e toxicologia.

O maior risco está justamente na mudança da lógica do mercado.

O purple drink ilustra perfeitamente a transformação descrita pelo Relatório Mundial sobre Drogas 2026. O usuário já não compra apenas uma substância. Ele compra um produto, uma experiência, com nome próprio, identidade visual e forte apelo nas redes sociais. Muitas vezes, nem sabe exatamente o que está consumindo.

O relatório da ONU destaca que essa estratégia tem sido adotada em diferentes mercados ilícitos. Em vez da comercialização tradicional de uma droga isolada, cresce a oferta de produtos que combinam diversas substâncias psicoativas, incluindo cetamina, MDMA, metanfetamina, cocaína, opioides, benzodiazepínicos e novas substâncias psicoativas, em formulações que mudam constantemente.

Para os profissionais de saúde, isso representa um novo desafio.

Durante muitos anos perguntávamos ao paciente: ‘Qual droga você usou?’. Hoje, muitas vezes, nem ele consegue responder. As misturas mudam constantemente, aumentando a imprevisibilidade clínica e tornando o atendimento de emergência muito mais complexo.

Além da mudança na composição dos produtos, especialistas chamam atenção para a forma como essas substâncias chegam aos jovens.

Diferentemente do passado, quando a iniciação ocorria principalmente pelo contato direto entre usuários, hoje vídeos curtos, músicas, influenciadores digitais e plataformas sociais funcionam como importantes vetores de divulgação. O aspecto visual colorido, nomes chamativos e a falsa percepção de que se trata apenas de uma bebida ou medicamento tornam esses produtos especialmente atrativos para adolescentes.

Esse novo cenário exige que pais conversem mais cedo com seus filhos sobre drogas.

Muitos pais ainda pensam apenas em maconha, cocaína ou crack. Mas os adolescentes de hoje podem ser expostos a produtos completamente diferentes, vendidos como algo moderno, divertido e aparentemente inofensivo, como os cigarros eletrônicos. A prevenção precisa acompanhar essa transformação.

Mercados ilícitos e suas novas estratégias

Outro aspecto destacado pelo Relatório Mundial sobre Drogas 2026 é a expansão do uso não médico da cetamina em diversas regiões do mundo e o crescimento da metanfetamina, demonstrando que os mercados ilícitos continuam inovando rapidamente para ampliar seu público consumidor.

O principal alerta do documento não é apenas sobre quais drogas estão crescendo, mas sobre a velocidade com que o crime organizado adapta seus produtos às tendências de consumo.

Os mercados ilícitos passaram a funcionar de forma muito semelhante aos mercados legais. Eles criam marcas, diversificam produtos, segmentam públicos e utilizam estratégias sofisticadas de marketing. Entender essa mudança é fundamental para que profissionais de saúde, educadores, gestores públicos e famílias consigam antecipar riscos e proteger nossos jovens.

Foto principal: Imagem gerada por IA

Alessandra Diehl
O mercado da droga mudou. Agora, com estratégias de marketing, lança novos "produtos" em misturas que parecem inofensivas como o purple drink

Médica psiquiatra, doutora em Ciências, especialista em dependências, professora, pesquisadora e referência nacional em saúde mental e uso de substâncias psicoativas. Membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Drogas (ABEAD) e membro da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPsiq). @dra.alessandradiehl

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