Aqui, aonde tudo recomeça… 

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Por Ângela Diana

Hoje é um desabafo… 

Uma vez, escrevi na coluna que a terra vermelha de Londrina “suga nosso sangue” …. terra vermelha de sangue… Aliás, será um ótimo titulo para um livro sobre meu trabalho… ou de outros artistas. 

Livro esse que talvez nunca saia dos projetos “a fazer”…. E porquê? A resposta é muito simples: morar em Londrina, para nós, artistas, é um eterno Recomeçar! Com “R” maiúsculo! 

Todos e todas nós passamos por isso, todos os dias, sempre um recomeço…. E cada vez que muda uma administração, um secretário ou secretária da cultura diferente assume é A MESMA COISA…. Ou pior ? 

A mesma “conversinha pra boi dormir”: a tal VISIBILIDADE! 

A vida do artista londrinense é um eterno recomeço porque, a cada nova administração, um novo secretário de Cultura vem com a mesma conversinha para boi dormir
Obra de Rogério Rigoni – Fotos: acervo dos artistas

Olha só! Ninguém quer VISIBILIDADE. No final das contas, artistas plásticos já conseguem isso com sua obra!  

Somos os criadores e criadoras por trás da obra (seja fotografia, pintura, desenho, design, escultura, arquitetura, artes têxteis….)  

Mesmo um ator de teatro, que tem os holofotes sobre ele ou ela, está fazendo um personagem e quem aparece é o PERSONAGEM, a obra!

Bijous de Maria Judite, do projeto de Bijous do grupo de artesanato Santa Ana

No geral, quem ou O QUE precisa aparecer é a obra! A arte é um enorme exercício de deixar o EGO de lado e trabalhar seguindo o fluxo da vida! 

É….eu sei! É difícil para quem vive de “aparecer” ou quem tem o ego muito frágil e cai na armadilha que hoje em dia, mais do que nunca, impera na vida de todos nós: o algoritmo! 

Mas, sabe? A arte segue um tempo diferente…. E eu não tenho nada contra os artistas que mostram o processo nas redes sociais… A diferença entre PUBLICIDADE e ser ARTISTA, estar no mundo da arte (óbvio que a publicidade precisa do artista, mais do que qualquer coisa) é que, enquanto a “propaganda é a alma do negócio “, na arte o que é mais importante dura séculos…. A obra, quando é realmente BOA, fala por si mesma! E, se sustenta dentro da sua verdade… 

A propaganda, muitas vezes é vazia e enganosa…Traz mais o ego do que a necessidade básica. 

Trabalha com a vaidade, o orgulho e a necessidade, muitas vezes escondida de quem acha que precisa “ser ídolo”… 

Óbvio que, quando fazemos um evento, a propaganda é necessária…. Tudo na medida certa, para não “engolir” o objetivo de tal ou tal evento, aonde a prioridade é aparecer o trabalho, as pessoas que trabalharam duro para que aquilo acontecesse e o principal: o resultado do trabalho. 

E a lógica é: com resultado, vem mais realizações… Aham….Então! 

Em Londrina, não é assim! Cada vez que muda a gestão, artistas tentam e tentam colocar  na cabeça dos gestores ou gestoras a importância da arte, da cultura, os projetos que realmente iriam ser de suma importância para a categoria e para a cidade…e nada acontece. Ou pior! Acontece o contrário. E é frustrante ter que “tentar e tentar”, recomeçar, explicar, falar sobre uma coisa que teriam, por obrigação cargo, entenderem profundamente! 

Quantas vezes, você, artista, não se viu numa situação de “provar seu valor”, ter que “esfregar” na cara de algumas pessoas, seu currículo de 20, 30, 40, 50 anos, de trabalho suado? 

Particularmente, eu não quero “visibilidade” para minha pessoa. Quem  deve aparecer é  minha obra, meu trabalho! Quero o que todo mundo quer: “viver do meu trabalho”! Pagar minhas contas, ter dinheiro para o material que eu quiser, poder viajar e viver em paz! Sem ter que fazer três, quatro, cinco jornadas diferentes de trabalho para apenas “sobreviver”! 

Obra conjunta do grupo Crochetando ( Maura, Letícia, Lucas, Maria, Poli, Elza)

Vejo amigos, amigas, colegas de trabalho, com projetos riquíssimos, que todo o ano, precisa preencher papelada pra colocar no Promic, sem nem saber quando o dinheiro vai sair ou se o projeto vai ser cortado, com desculpas esfarrapadas!  

Como Londrina “paga“ uma fortuna para manter prefeitos, secretários, vereadores a um custo altíssimo para nossos bolsos e não são capazes de gerir uma administração de uma cidade? Cargos de secretários devem ser TÉCNICOS! Para começo de conversa! Londrina NASCEU PARA SER PÓLO CULTURAL, e não “trampolim” político! 

Mais uma vez, deixo aqui também que, se cada artista ou produtor cultural, soubesse pela lei, para que serve uma Secretaria de Cultura na sua cidade, ninguém ficaria como estamos hoje: mais uma vez, RECOMEÇANDO….E pedindo migalhas de uma fonte que nós mesmos enchemos para que outros se beneficiem e para que nós continuemos a dar o sangue para sobreviver com nosso trabalho, recomeçando de novo a cada ciclo… 

Nunca indo para frente… com os horizontes “fechados”, se voce ainda for confiar que uma Secretaria de Cultura vai cumprir o papel dela! E um deles é : “Propagar o trabalho criativo da sua cidade”! 

Exemplo? Curitiba. 

Uma vez, estava eu visitando uma galeria e, quando vi, Poti Lazzarotto estava indo embora… Cheguei na atendente e perguntei se era ele mesmo e ela me respondeu: “Sim! Mestre Poti (como era carinhosamente chamado) estava aqui, conversando conosco”… Fiquei chateadíssima por não ter chegado a tempo de conhecê-lo pessoalmente e, ao mesmo tempo, fiquei encantada com a distinção e respeito com que o tratavam… 

E sabe qual a diferença entre Poti e muitos artistas aqui que mereciam a mesma distinção? O RESPEITO PELO TRABALHO. 

Pelo tempo que cada um ou uma deu de sua vida para que Londrina fosse reconhecida em seus currículos! Porquê não é a cidade que leva o nome do artista e sim o artista que leva o nome da cidade até o final da sua vida! 

Em cada momento, deixamos para a cidade pedaços da nossa história e alma, cada um ou cada uma já tem sua obra em algum acervo público! Isso é já uma “contrapartida” social! 

Ter respeito não é dar apenas uma frágil “visibilidade”, é fazer com que recursos sejam otimizados, trazer esses recursos de fora se possível, trabalhar para o bem comum, fazer o trabalho de uma forma equilibrada e com planejamento estratégico para uma das correntes mais importantes da cidade que é a da cultura. 

Em Londrina, quem conseguiu transformar um Departamento de Cultura em Secretaria foram os ARTISTAS. 

Detalhe de obra de Frutuoso

Quem conseguiu evitar que um prédio projetado por Vilanova Artigas fosse ao chão e  fosse transformado em museu foram os ARTISTAS! 

Uma Secretaria de Cultura não nasce para fazer propaganda de gestão nenhuma e nem dela mesma!  

Adianta colocar isso na coluna? Não. 

Recomeçando sempre

Enquanto vejo o sol nascer e se pôr, vejo amigos, amigas e colegas lutando todos os dias, recomeçando sempre, com uma força tirada não sei de onde pela arte, pela cultura, para que as pessoas possam saber que o mundo não é só vaidade fútil, conhecimentos vazios… 

Cada dia que passa, aqui, a luta é maior! E cada vez tudo do mesmo com pitadas de tédio… 

Aquele tédio que nasce de ouvir as mesmas ”balelas“, travestidas de glitter….brilho falso. 

Promessas vazias, administrações frágeis e nunca com o intuito de gerir essa Londrina como ela merece! 

E a arte? Essa sempre dará um jeito de continuar… passe o que passe, é só o que me dá alento… 

Ligue 180, em caso de violência contra as mulheres. 

#justicapeloorelha 

#justicaparatodososanimais 

Foto principal: Obras de Marilia Menon

Ângela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Instagram angela_dianarte

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