Entre a diversão e a dependência: o lado oculto das apostas on-line

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Por Alessandra Diehl

Um movimento crescente de artistas brasileiros nas redes sociais tem chamado atenção para os riscos das apostas on-line. Em vídeos e publicações no Instagram e outras, atores, cantores e influenciadores têm criticado a promoção do chamado “Jogo do Tigrinho” e das plataformas de apostas esportivas por celebridades – digitais ou não. O alerta não é por acaso. Cada vez mais pesquisas científicas apontam que o fenômeno das bets deixou de ser apenas entretenimento para se transformar em um problema de saúde pública.

Os jogos de azar acompanham a humanidade há séculos, mas a revolução digital alterou completamente sua dimensão. Hoje, basta alguns toques na tela do celular para acessar cassinos virtuais, caça-níqueis on-line e plataformas de apostas esportivas disponíveis 24 horas por dia. Em 2024, esse mercado movimentou cerca de US$ 86 bilhões em todo o mundo.

A combinação entre acesso fácil, anonimato, recompensas instantâneas e publicidade agressiva cria um ambiente propício para o desenvolvimento da dependência. O problema se agrava quando a divulgação é feita por influenciadores digitais e celebridades que apresentam ganhos rápidos e uma suposta vida de luxo associada às apostas.

Embora sejam vendidas como diversão, as apostas podem evoluir para o chamado Transtorno do Jogo (TJ), uma condição reconhecida oficialmente pelos principais manuais internacionais de psiquiatria. Trata-se de uma dependência comportamental semelhante, em vários aspectos, à dependência química, embora as drogas não sejam anunciadas em todas as redes e TVs.

Dados da Universidade Federal de São Paulo revelam que 25,9% dos brasileiros já fizeram algum tipo de aposta na vida. Cerca de 17,6% apostaram nos últimos 12 meses. O dado mais preocupante, porém, é que 7,3% apresentam comportamento de jogo considerado arriscado ou problemático. Já 0,8% da população sofre efetivamente do transtorno, o que representa aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros.

Os estudos mostram que determinados grupos são mais vulneráveis ao desenvolvimento da dependência. Homens jovens, pessoas com dificuldades financeiras, desempregados, indivíduos com baixa escolaridade e moradores de grandes centros urbanos aparecem com maior frequência entre os casos diagnosticados.

Apostas como válvula de escape

Os primeiros sinais costumam surgir de forma discreta. O jogo passa a funcionar como uma válvula de escape para ansiedade, tédio, solidão ou frustração. Aos poucos, o apostador aumenta os valores investidos e o tempo dedicado às apostas. Quando tenta parar, sente irritação, inquietação e dificuldade de controlar o impulso.

São três fases clássicas da doença. Na fase da vitória, o jogador experimenta ganhos iniciais e acredita possuir habilidade especial para vencer. Na fase da perda, começa a acumular prejuízos financeiros e tenta recuperar o dinheiro perdido com apostas cada vez maiores. Por fim, chega a fase do desespero, marcada por compulsão, endividamento, conflitos familiares e graves consequências emocionais.

Outro fator que dificulta o combate ao problema são as chamadas distorções cognitivas. Muitos jogadores acreditam que conseguem prever resultados, que a sorte irá mudar a qualquer momento ou que estão “quase ganhando”. São ilusões que alimentam a continuidade das apostas mesmo diante de perdas sucessivas.

Impacto na saúde mental

O impacto sobre a saúde mental é significativo. Pesquisas recentes associam o comportamento compulsivo de apostar a maiores índices de ansiedade, depressão, estresse, sofrimento psicológico e isolamento social. Também são frequentes problemas relacionados ao consumo abusivo de álcool e outras drogas.

As consequências financeiras afetam não apenas os jogadores, mas suas famílias. Endividamento, inadimplência, queda de produtividade no trabalho e conflitos domésticos fazem parte de um quadro que gera custos elevados para toda a sociedade. Em situações extremas, o desespero causado pelas dívidas pode aumentar o risco de pensamentos suicidas.

Tratamento precoce

O tratamento existe e pode ser eficaz quando iniciado precocemente. Ele envolve acompanhamento psicológico, suporte psiquiátrico quando necessário, participação em grupos de apoio e estratégias práticas para reduzir o acesso às apostas, como bloqueio de aplicativos, restrição financeira e afastamento de situações que funcionam como gatilho.

Mas  a responsabilidade pelo enfrentamento do problema não pode recair apenas sobre o indivíduo. É necessário ampliar a regulação do setor, controlar a publicidade direcionada aos mais vulneráveis e fortalecer campanhas de conscientização.

Enquanto artistas, pesquisadores e profissionais de saúde acendem o sinal de alerta, uma questão permanece no centro do debate: até que ponto uma atividade apresentada como diversão continua sendo apenas entretenimento quando milhares de pessoas perdem dinheiro, saúde mental e qualidade de vida em busca de uma vitória que quase nunca chega?

Foto principal: Imagem gerada por IA/ChatGpt

As apostas on-line deixaram de ser entretenimento para se tornar uma questão de saúde pública. Cerca de 1,4 milhão de brasileiros desenvolveu o Transtorno de Jogo

Alessandra Diehl

Psiquiatra, membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Drogas (ABEAD) e membro da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPsiq). @dra.alessandradiehl

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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.

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Respostas de 3

  1. Excelente análise, Dra. Alessandra Diehl.

    O Transtorno do Jogo é, muitas vezes, a ponta de um iceberg chamado dependência cruzada.O que vemos na clínica é um ciclo perigoso: o indivíduo interrompe o uso de substâncias, mas, por não ter tratado a desregulação profunda do Trauma Complexo (C-PTSD), o sistema de recompensa busca alívio imediato nas apostas online.

    O grande erro das reincidências de internações é focar na ‘limpeza’ do organismo e ignorar a arquitetura do trauma. Sem uma abordagem como o CRAFT, que altera o ambiente de reforço, e um olhar atento à vergonha tóxica descrita por Pete Walker, continuaremos enxugando gelo.

    A internação que não trata o trauma é apenas uma pausa cara em um processo de autodestruição contínuo.Precisamos falar sobre a raiz, não apenas sobre o comportamento

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