Meus filhos querem que me case de novo

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Tenho 52 anos e fiquei viúva há 10 anos. Meus filhos insistem que eu devo arrumar um namorado e me casar de novo. Dizem que é para não ficar sozinha quando estiver mais velha, que é bom ter um companheiro. Mas depois de 20 anos de um casamento meia boca, não estou entusiasmada com a ideia, apesar de ter horas que acho que eles têm razão. O problema é que aprendi a gostar da minha própria companhia, de morar sozinha e ter minha liberdade e não quero perder nada disso. Quem está certo, eu ou eles?”

Amiga, já digo logo de cara: ninguém está errado nessa história. Fica sossegada.

Seus filhos não estão tentando empurrá-la para os braços do primeiro aposentado disponível na praça. Provavelmente, eles estão olhando para você com amor e preocupação, querendo que a mãe seja feliz nos próximos anos, com alguém para compartilhar alegrias, dificuldades e até as inevitáveis reclamações sobre as dores que chegam com a idade.

Mas, nisso tudo, existe um detalhe importante que talvez eles não estão enxergando. Quem deve viver sua vida é você. Mesmo com todo o amor deles, você não precisa aceitar conselhos que acredita que não vai fazer bem a si própria.

Eu entendo perfeitamente sua relutância em querer dividir sua paz, depois de 20 anos de um casamento “meia boca”. Estou na mesma situação, depois de 25 anos divorciada. Adorei viver sozinha e não quero mais me casar. É perfeitamente compreensível que tenha descoberto algo extremamente precioso durante essa sua década de viuvez: a paz da própria companhia. Amiga, não tem coisa melhor, né?

Existe uma tremenda injustiça social quando o assunto é mulheres sozinhas. Quando um homem de 52 anos diz que mora sozinho, viaja quando quer, faz o jantar ou não e não precisa dar satisfação a ninguém, todo mundo o chama de livre, independente e bem-resolvido. Quando uma mulher faz exatamente a mesma coisa, surge imediatamente uma comissão de especialistas em vida alheia perguntando quando ela vai arrumar um namorado e casar de novo.

Como se a felicidade feminina precisasse de um certificado emitido por um companheiro. Ai ai.

A gente aprende a gostar da nossa rotina, da casa organizada do nosso jeito, de poder assistir o que quiser na TV e da liberdade de decidir o que fazer num sábado à noite sem precisar negociar com ninguém (e geralmente perder, porque homens são uns meninos birrentos). Isso não é egoísmo, é qualidade de vida.

Casamento não é vacina contra a solidão

E outra verdade que vai pegar muita gente. Casamento não é vacina contra a solidão. Solteiros podem levar uma vida social rica, cheia de amigos, atividades, viagens e projetos. E boa parte das mulheres casadas se sentem profundamente sozinhas dentro da própria casa, porque, enquanto estão cuidando do lar, os maridos estão por aí, jogando futebol, indo no bar com os amigos, fazendo atividades diversas que geralmente excluem as esposas. Ter alguém do lado não garante companhia emocional. Às vezes, esse alguém só está ocupando espaço no sofá.

Sem contar que as mulheres ainda costumam ser aquelas que cuidam de tudo e de todos. Mas que, raramente, são cuidadas. Inclusive na doença.

Não se feche

Por outro lado, eu acho que também não vale transformar a independência numa fortaleza com muros intransponíveis.

Você mesma disse que, em alguns momentos, acha que seus filhos talvez tenham razão. Isso me diz que talvez a questão não esteja totalmente encerrada. Aliás, como não está para mim ou para as milhares de mulheres que optaram por ficar sozinhas.

Talvez não exista a vontade de casar novamente, mas, como eu, talvez você queira um companheiro não tradicional. Uma pessoa que esteja junto, mas não morando junto. Isso pode ser legal, né? Alguém para sair, dançar, viajar, curtir a vida e, no final do encontro, cada um vai para sua casinha. Ó que coisa boa. O melhor dos dois mundos. O problema é que os homens são resistentes à essa ideia. Sim, eu sei. A maioria quer dar o próximo passo, se enfiar na sua casa (ou levá-la para a dele) e ganhar uma companheira que vai cuidar dele, lavar, passar, cozinhar. Afe.

Mas, como eu sempre digo, a esperança é a última que morre, né? Mas você precisa se abrir para conhecer pessoas, fazer novas amizades ou ter vários relacionamentos mais leve, sem abrir mão da autonomia que conquistou.

O ponto principal é esse: você não precisa escolher entre a solidão e o casamento. Existe um território enorme entre essas duas coisas, que merece ser explorado com diversão e alegria.

E, se um dia surgir alguém capaz de trazer mais alegria que trabalho e preocupação, mais leveza que obrigação e mais parceria que cobrança, permita-se considerar a possibilidade. Mas não com a ideia de encontrar alguém apenas para servir de apólice contra a solidão da velhice.

Seu futuro pode ser construído pelas amizades, pelos laços familiares que mantém, seus interesses, cuidados com você mesma e, principalmente, com a satisfação pela sua vida. Se aparecer um amor, que seja bônus. Não uma exigência.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

Depois de 10 anos de viuvez, a leitora está sendo pressionada pelos filhos para arrumar um companheiro e casar de novo.
Tia Telma versão IA

Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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