Por Marcelo Minka
Escrevendo aqui sobre o filme que vi ontem, notei algo revelador logo na primeira lembrança que me veio à cabeça: a janela. Sol e chuva do lado de fora, mas nenhum fantasma pedindo para entrar. Nesta nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, a célebre aparição de Catherine simplesmente não existe. O filme abdica do espectro e, com ele, da ideia de que o passado insiste em retornar. O que sobra não é assombração, mas presença física, imediata, quase claustrofóbica, como se a história se recusasse a sobreviver fora do corpo e do agora.
Há algo deliberadamente deslocado nesta nova adaptação desta obra literária, lançada nesta semana nos cinemas brasileiros. Não apenas por revisitar um romance do século XIX, mas por insistir que essa história de obsessão, ressentimento e desejo ainda pode ser filmada como se fosse uma ferida aberta, não um monumento literário. A diretora Emerald Fennell (Bela Vingança, 2020) parece menos interessada em traduzir O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë para o cinema do que em confrontar o espectador com a violência emocional que o livro sempre carregou, mas que muitas versões anteriores suavizaram em nome do romantismo.
A escolha de Margot Robbie (Eu, Tonya, 2017) como Catherine Earnshaw e Jacob Elordi (Saltburn, 2023) como Heathcliff estabelece desde cedo o tom da proposta. Trata-se de um casal filmado não como ideal trágico, mas como força destrutiva. Fennell enquadra seus personagens como corpos em constante colisão com o ambiente, com os outros e consigo mesmos. O morro deixa de ser apenas paisagem e se torna extensão psicológica: vento, lama, espaços fechados e ruídos parecem conspirar para manter todos aprisionados em um estado de tensão permanente.

A fisicalidade das interpretações
O filme se apoia fortemente na fisicalidade das interpretações. Robbie constrói uma Catherine impulsiva, orgulhosa e, por vezes, cruel, afastando qualquer leitura complacente da personagem. Elordi, por sua vez, interpreta Heathcliff menos como figura enigmática e mais como presença bruta, marcada pelo ressentimento e pela exclusão social. Essa abordagem torna a relação entre os dois menos “romântica” e mais perturbadora, o que dialoga, em parte, com o espírito do texto original, ainda que sacrifique nuances psicológicas mais sutis.
Há, no entanto, uma escolha estrutural decisiva que redefine o alcance da narrativa desta versão de O Morro dos Ventos Uivantes: a redução drástica da segunda geração de personagens. No romance de Brontë, o tempo é elemento moral; as ações reverberam e cobram seu preço nos filhos. Ao minimizar esse arco, o filme transforma a história em um estudo concentrado de paixão e ruína imediata, mais intenso, mas também mais limitado. O que se ganha em impacto emocional se perde em profundidade histórica e ética.
Visualmente, Fennell demonstra controle e ambição. A mise-en-scène evita o academicismo dos dramas de época tradicionais e flerta com uma sensorialidade quase contemporânea, aproximando o filme de seus trabalhos anteriores. Em alguns momentos, essa estilização beira o excesso, sugerindo que a diretora confia mais no choque estético do que na progressão dramática. Ainda assim, é uma proposta coerente com sua filmografia, interessada em personagens que se autodestroem diante de nossos olhos.
O Morro dos Ventos Uivantes divide opiniões
Trata-se de um filme que divide opiniões. Quem busca fidelidade literária encontrará ausências importantes. Quem aceita o risco de uma leitura autoral encontrará uma adaptação incômoda, por vezes desigual, mas raramente indiferente. Não é um clássico reverenciado em silêncio, mas um clássico reaberto à força, com todas as contradições que isso implica.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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