Por Edra Moraes
Qual o papel dos coletivos artísticos na reconfiguração do cenário cultural brasileiro? Esta pergunta se torna cada vez mais relevante diante da emergência de grupos que, nas últimas décadas, têm desafiado estruturas e proposto novos modelos de criação e difusão artística.
Os coletivos artísticos representam uma resposta estratégica à escassez de recursos e à ausência crônica de representatividade nos espaços de legitimação cultural. Operando sob lógicas de colaboração horizontal, esses grupos não apenas produzem arte, mas eles constroem ecossistemas de resistência que articulam dimensões estéticas, políticas, afetivas, e de renda.
Autoria compartilhada como estratégia de transformação
O que diferencia fundamentalmente os coletivos das instituições culturais convencionais? A autogestão, a valorização da autoria compartilhada e a experimentação contínua configuram características distintivas desses agrupamentos.
Este modelo organizacional tem viabilizado a emergência de narrativas historicamente silenciadas. A ocupação de ruas, feiras, saraus, plataformas digitais e até políticas públicas como os Pontos de Cultura evidencia a amplitude dessa atuação.
Coletivo Marianas: dez anos de resistência literária
O Coletivo Marianas, com sede em Curitiba (PR), exemplifica a potência transformadora dessa forma de organização. Desde 2014, o grupo atua na promoção da literatura produzida por mulheres cis e trans, enfrentando o apagamento sistemático da autoria de mulheres.
A trajetória do coletivo culminou, em 2024, no credenciamento como Ponto de Cultura e o reconhecimento institucional. Inspirado na trajetória da educadora e feminista Mariana Coelho (1857–1954), o grupo articula criação literária, ativismo feminista e educação cultural por meio de projetos como o evento Letra de Mulher e o selo editorial, responsável pela publicação de dezenas de autoras em âmbito nacional.

Andréia Carvalho Gavita: “Criamos nossos próprios palcos”
Editora, escritora e ativista cultural, Andréia Carvalho Gavita, figura entre as principais articuladoras da literatura no Paraná. Fundadora da Editora Donizela e integrante do GREI (Grupo de Editoras Independentes de Curitiba e Região), é autora de sete obras literárias e organizadora de Francisca Viva (Donizela, 2023), homenagem à poeta simbolista Francisca Júlia.
Andréia coordena o Coletivo Marianas. Em entrevista, ela detalha o percurso, os desafios e o impacto político do trabalho coletivo.
“Desde o início, a ausência feminina nos palcos me incomodava”
“Construí uma carreira autônoma na literatura como escritora e editora. Minha inserção na cena literária curitibana começou por volta de 2014, e desde os primeiros eventos uma contradição me marcou profundamente: eu via uma plateia repleta de mulheres e, no palco, homens. Para enfrentar essa exclusão, a resposta foi fundar o Coletivo Marianas, um grupo de escritoras e artistas que tomou para si a tarefa urgente de construir seus palcos.”
Publicar para existir
“Para publicar nossos livros, criamos o projeto Marianas Edições, em parceria com editoras, no qual atuei como curadora e diagramadora, garantindo a publicação de 60 obras, entre individuais e coletivas. Coordeno, junto ao coletivo, o evento mensal Letra de Mulher, criado em 2014 para debater a literatura produzida por mulheres. Atuamos também em feiras, festivais e semanas acadêmicas, levando nossa discussão a diversos espaços.”

Da Donizela ao reconhecimento nacional
“Em 2021, fundei a Editora Donizela para dar continuidade e profissionalizar esse trabalho coletivo. E, em 2024, essa caminhada foi coroada com a certificação do Coletivo Marianas como Ponto de Cultura, um reconhecimento institucional de uma década de trabalho contínuo.
Somadas as duas frentes editoriais, são mais de 140 livros publicados. Garantimos que todo o processo editorial, escrita, ilustração, revisão, seja realizado por mulheres. Paralelamente, realizamos cerca de 180 eventos, ocupando e legitimando espaços culturais pela cidade e pelo estado.”
Como participar
“Para entrar no Coletivo Marianas, basta acionar qualquer integrante do grupo para ser incluída nos grupos de organização e, principalmente, comparecer aos eventos para conhecer nossas ações. O Letra de Mulher acontece todo primeiro domingo do mês, na Feira do Poeta, em Curitiba.
Autonomia, estratégia e transformação estrutural
Os dados apresentados por Andréia Carvalho Gavita são eloquentes: 140 livros publicados, 180 eventos realizados, uma rede consolidada de autoras e leitoras. Mas o que esses números revelam sobre as transformações possíveis no campo cultural brasileiro?
O Coletivo Marianas evidencia que a construção de alternativas ao modelo institucional tradicional requer articulação multidimensional: autogestão financeira, criação de infraestrutura editorial própria, ocupação sistemática de espaços públicos e, fundamentalmente, construção de redes de solidariedade que sustentem o trabalho continuado.
O reconhecimento como Ponto de Cultura representa não apenas validação institucional, mas também acesso a recursos que podem amplificar o alcance das ações. Os coletivos artísticos, em suas diferentes configurações, questionam paradigmas consolidados sobre autoria, legitimação e circulação de bens culturais. Propõem modelos mais democráticos, inclusivos e horizontais onde a diversidade não é concessão, mas princípio fundante.
O Coletivo Marianas ilustra como autonomia organizacional, rigor metodológico e compromisso político podem convergir na construção de alternativas concretas ao apagamento histórico das mulheres na literatura brasileira.
Este modelo de economia criativa feminista não apenas gera renda e oportunidades, mas também cria espaços de representatividade e discussão, provando que é possível conciliar sustentabilidade econômica com propósito político e social
O Coletivo Marianas demonstra como a organização horizontal e o protagonismo das mulheres podem transformar a arte em instrumento de resistência política e cultural
📍 Serviço Coletivo Marianas Instagram: @coletivomarianas
Evento fixo: Letra de Mulher, todo primeiro domingo do mês, na Feira do Poeta, em Curitiba/PR.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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Respostas de 4
Edra, teu texto pontuou toda riqueza do Coletivo Marianas. Meu profundo agradecimento às Marianas que me acolheram, e em especial, a indignação positiva da Andreia Gavita, que percebendo a ausência de palco para nós ergueu, juntamente com outras mulheres, esse palco lindo que é o Coletivo Marianas.
Gratidão, Edra, por esta excelente matéria sobre as importantes ações do Coletivo Marianas na promoção da literatura de mulheres!!!
Excelente matéria informativa sobre as ações culturais do Coletivo Marianas.
Parabéns a todas.
Parabenizamos as conquistas dessa geração de mulheres escritoras e suas histórias precisam ser contadas e lidas !
Excelente reportagem em que um portal se abre para as envolvidas nesse movimento irradiante.