Não consigo penetração porque dói muito

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Tenho um problema que me persegue desde que iniciei minha vida sexual, com meus 19 anos: a penetração dói muito e prefiro não fazê-la. Já fui em ginecologistas e nenhum detectou algum tipo de problema. Me dizem que é psicológico. Fiz terapia, mas continuo com o mesmo problema. Hoje, aos 25, estou namorando sério e pensando em casar. Meu namorado me entende e evitamos penetração, mas, com esse problema, tenho medo de não conseguir engravidar mais para frente. Será que você pode me dar uma ideia do que pode estar acontecendo comigo?”

Bom, amiga, vamos lá. Como você já procurou ajuda de especialistas e não conseguiu resolver seu problema, eu só posso especular o que pode estar acontecendo. Mas antes, quero parabenizar por não desisitir de tentar uma solução para seu caso. Muitas mulheres acham que é normal (depois que os médicos dizem que não há nada de errado com elas) e passam a vida sofrendo, sem buscar solução. O que eu acredito é que seu caso não foi investigado como se deve. E sim, isso pode acontecer. Levei mais de 12 anos e passei por 8 médicos ginecologistas antes de descobrir, aos 32 anos, que aquela dor excruciante que sentia e que me impedia até de andar normalmente era um quadro grave de endometriose. Então, eu sei o que estou falando. Sugiro que procure outros ginecologistas que investiguem mais à fundo, ok? Não desista até encontrar um que dê um rumo à situação.

O que você descreve – dor forte na penetração sem problemas físicos detectados – é algo mais comum do que parece e tem até nome: disfunção sexual feminina relacionada à dor. Essa disfunção pode ser o que os médicos chamam de vaginismo ou dispareunia. Em termo simples, é quando a vagina se contrai involuntariamente, como se dissesse “não quero” naquele momento. E isso não tem nada a ver com o desejo sexual e confiança no parceiro.

A vagina reage como se estivesse em perigo, com medo, e se contrai em vez de relaxar para receber o pênis. A musculatura pélvica se fecha, a lubrificação diminui e o desconforto aumenta. É um ciclo que se retroalimenta: a dor gera medo, o medo gera tensão, a tensão causa dor. Esse problema geralmente não é detectado por exames ginecológicos porque envolve questões funcionais, musculares e emocionais ao mesmo tempo. Por isso, quando o médico diz que você “não em nada”, o que ele quer dizer é que não encontrou uma causa física visível, mas existe e é real.

Há outras causas físicas menos óbvias, mas que também podem estar envolvidas, como pequenas inflamações, alterações hormonais ou até disfunção do assoalho pélvico (quando os músculos da região ficam tensionados por muito tempo). Até a endometriose pode estar relacionada e ela não é fácil de ser descoberta. Eu sentia muita, mas muita dor na penetração, no período pré e menstrual. Foi preciso um médico MUITO ATENTO e que se propôs a investigar mais profundamente, pedindo exames além do útero. A minha, por exemplo, só foi descoberta com um exame de ultrassom do abdome e não apenas do útero e trompas, como os 7 médicos anteriores pediram.

Porém, na maioria dos casos, o vaginismo está ligado a um componente emocional importante. Isso não significa que é “coisa da sua cabeça” e sim que corpo e mente estão em diálogo constante. Nesse diálogo, se a mente entende o sexo como algo ameaçador, sujo ou vergonhoso, o corpo reage fechando-se, literalmente.

Penetração e sexo: tabus

E aqui entra um ponto que pouca gente fala, mas é essencial para entender: o quanto a educação repressora que a maioria das mulheres são submetidas influencia no vaginismo e na consequente dor na penetração. Desde pequenas nos ensinam que sexo é “errado”, “pecado”, que mulher “direita” não sente desejo, que prazer é coisa de homem e que “moça de família” deve se preservar e não pensar em sexo. Masturbação feminina, então, é tabu. Imagine ensinar sua filha que se masturbar faz bem para saúde e vida sexual? Nunca. Além disso, crescemos ouvindo que sentir dor, na primeira penetração de um pênis na nossa vagina, é normal, mas que precisamos “aguentar firme”.

Todas essas ideias enraízam um medo inconsciente do prazer e o corpo aprende a associar penetração com culpa, vergonha e punição. Num mundo machista, o prazer feminino sempre foi tratado como algo menor, proibido. E isso pesa na vida adulta, mesmo que racionalmente você saiba que sexo é algo natural e bonito. Lá no fundo, bem no fundão mesmo, você pode estar travada por esses tabus. E não é culpa sua, é resultado de uma sociedade que “apaga” a mulher como um ser sexual, que ensina as meninas a se envergonharem do próprio corpo – o que gera uma busca infinita por um corpo perfeito – do próprio desejo. Mulher ter fantasias e gostar de sexo? Absurdo!

Por isso, a maioria dos casos de cura do vaginismo envolve tratamento tanto físico quanto emocional. Sim, eu sei que você procurou ajuda de um psicólogo e não resolveu. Mas que tal procurar um terapeuta sexual? Às vezes, a psicologia tradicional não é indicada. É preciso buscar alguém que entenda de disfunções sexuais à fundo. Muitas mulheres só começam a melhorar quando encontram um profissional que saiba como funciona a sexualidade feminina.

Outra ajuda pode vir de fisioterapia pélvica – também feita por especialistas que ensinam exercícios para relaxar os músculos da vagina, com técnicas de respiração, biofeedback e até dilatadores vaginais, instrumentos que ajudam o corpo a se acostumar, aos poucos, com a penetração.

Além disso, o apoio do seu namorado é fundamental. O fato dele compreendê-la e não forçá-la a penetração já é uma grande ajuda. Continuem conversando abertamente, sem tabu, sem culpa. Como sempre digo, sexo não é só penetração (aliás, a maioria das mulheres não conseguem alcançar o orgasmo só com isso). É o toque, o carinho, intimidade, preliminares bem feitas e muitas formas de dar e receber prazer – como sexo oral – que fazem uma boa relação sexual.

Sobre engravidar no futuro, é importante saber que existem alternativas caso a penetração continue difícil, como inseminação caseira (sim, é possível em casos que não envolvem problemas de fertilidade). Mas acredito que, se seguir minha dicas (procurar novos ginecologistas, terapeutas sexuais e fisioterapeutas pélvicos), logo você estará tendo relações completas e vai engravidar naturalmente.

O essencial é saber que sentir dor na penetração não é normal e, portanto, não é destino. Não aceite explicações simplistas de profissionais que dizem que não há nada errado. Seu corpo está pedindo ajuda e ele não é seu inimigo. Só está tentando se proteger de algo que, em algum momento, ele aprendeu a temer. Com tratamento adequado, informação e o apoio e amor do seu namorado, dá para “reconstruir” essa sua relação com seu próprio corpo.

Para ajudar, vou deixar alguns locais onde buscar mais informações e até tratamentos, ok?

Instituições e sites médicos confiáveis

Hospital das Clínicas da USP – Setor de Sexualidade Feminina: referência nacional em disfunções sexuais femininas, inclusive vaginismo e dor na relação.

Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH): reúne terapeutas sexuais e psicólogos especializados. Você pode procurar um profissional credenciado na sua cidade.

Hospital Albert Einstein – Saúde da Mulher: artigos sobre dor pélvica, vaginismo e tratamentos integrados.

Universidades públicas – Sempre há pesquisadores e programas voltados para a Saúde da Mulher e onde você pode buscar ajuda. Em Londrina, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) tem uma residência multiprofissional na área. Está até no Instagram: @saudedamulher. Lá tem os contatos.

Fisioterapia pélvica: Busque fisioterapeutas especializados em reabilitação do assoalho pélvico.

Terapia sexual: Procure profissionais especilizados em sexualidade feminina.

Livro que vale ouro: “O Prazer é Todo Seu” – Emily Nagoski – Um clássico moderno sobre a sexualidade feminina, mostrando como o cérebro, o corpo e as emoções se conectam.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Quem é Tia Telma?

A leitora enfreta dores quando vai fazer sexo e há penetração. Já procurou ginecologista e psicólogo, mas não resolveu o quadro e pede ajuda
Tia Telma versão Inteligência Artificial

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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